sábado, 17 abril 2010

Afinal…trabalhar para quê?

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Com certeza já reparou que dois minutos após o contacto outra pessoa, é inevitável que surjam as perguntas: "Como te chamas..." e "O que fazes...".

Há décadas que a profissão tem conquistado espaço nos componentes da nossa identidade e é difícil, senão impossível, estabelecer uma conversação sem referir o que fazemos profissionalmente.

 

Apesar de muitos países defenderem já a diminuição da carga horária semanal de trabalho, Portugal situa-se ainda, em muitos casos, nas 40 horas, assim, trabalhamos cerca de 40 anos, durante 11 meses por ano...é só fazer as contas!

Em quarenta anos de vida temos 350.000 horas para viver.

116.000 horas são reservadas ao sono (se dormir 8h/dia), só temos 30.000 horas de férias (30 dias de férias por ano) e trabalhamos aproximadamente 70.000 horas nesses quarenta anos! Isto o que significa que passamos mais tempo a trabalhar do que a descansar, a conviver com família e amigos ou a dedicarmo-nos a nós próprios!

Mas como é que isto foi acontecer? Afinal, para quê trabalhar? Já pensou nisso? Talvez a sua primeira resposta impulsiva seja "para ganhar dinheiro"! Mas vamos conhecer um pouco da história do trabalho, para uma compreensão mais aprofundada do motivo pelo qual trabalhamos.

Analisemos a palavra "trabalho": esta deriva da palavra latina tripaliu (à letra "três paus") que designava um aparelho para sujeitar os cavalos que não se deixavam ferrar (Priberam). O verbo tripaliare veio a significar também torturar em português.

Parece que o significado de algo penoso e difícil tem andado sempre associado ao trabalho, porém os gregos possuíam outra palavra para designar "trabalho": ergon, que designa uma criação ou obra de arte. Assim, podemos compreender que o termo trabalho tem, dois significados (Woleck, 2002): esforço, sofrimento (do grego "ponos") e criação, obra de arte (do grego "ergon"). Aliás, mais tarde Karl Marx considerou o trabalho como a única fonte criadora da vida humana.

Na antiguidade, o trabalho era considerado a actividade dos que perderam a liberdade, ou seja dos escravos, e considerava-se o ócio como uma virtude. Lembre-se que se não tivesse sido cultivado o ócio (como ausência de trabalho), não teríamos hoje grandes perspectivas da filosofia e grandes obras de literatura (que na altura, não era consideradas trabalho). Foi apenas com a ascensão da burguesia no século XIX que o ócio começou a ser condenado.

No final da idade média o trabalho passou a incorporar algum sentido positivo e a ser encarado como uma acção criadora, um espaço de aplicação das capacidades humanas, acompanhado pela noção de empenho, de esforço para atingir determinado objectivo (Woleck, 2002).

Por vezes esquecemos que muitas actividades que são trabalho (trabalho doméstico, jardinagem, estudar, etc.) não são consideradas emprego. Quando uma pessoa não tem emprego, muitas actividades de trabalho continuam, por exemplo, familiares, parentais, comunitárias, etc., e todas estas implicam determinados deveres e obrigações.

"Emprego", por seu turno, é a troca contratual, institucionalmente regulamentada, entre duas partes, em que uma vende, e a outra compra trabalho, normalmente por dinheiro, mas também poderá ser por bens ou serviços.

O trabalho pode ser considerado como toda a actividade realizada, enquanto a relação jurídica de emprego, tem de ser contratualizada através de um "contrato de trabalho" (escrito ou oral).

A palavra emprego surge na língua inglesa em 1400 e, até ao início do século XVIII, respeitava a uma determinada tarefa e nunca se referia a um papel ou a uma posição numa organização. Só a partir do século XIX, passou a ser entendida como o trabalho realizado nas fábricas ou nas burocracias das nações em fase de industrialização (Woleck, 2002).

Aproveitemos para definir desemprego. Desemprego é definido como a falta de emprego (Priberam, s/d), enquanto que desempregado é definido como sem-emprego; desocupado (ibidem).

O prefixo "des" faz-nos crer que se trata de uma pessoa que já teve emprego e que deixou de o ter, mas na realidade, na língua portuguesa, designa indefinidamente quem nunca o teve, pois não existe palavra para caracterizar "a pessoa que nunca teve relação de emprego".

A segunda definição de desempregado é "desocupado", o que não está correcto, pois ser desempregado não é estar desocupado ou não ter trabalho, já que muitas actividades de trabalho continuam.

Introduzi recentemente (Araújo, 2009) um outro fenómeno: o Inemprego ou não-emprego. Defino-o como a situação em que se encontra a pessoa que nunca teve uma relação jurídica de emprego (contrato de trabalho sem termo), seja porque sempre trabalhou em situações precárias (estágios, contratos a prazo, prestação de serviços [recibos verdes], bolsas de investigação, part-time, etc.), ou porque nunca trabalhou, ou já trabalhou precariamente mas está sem ocupação laboral no momento. Estima-se que existam milhares de inempregados em Portugal, que sem nunca parar de trabalhar, nunca tenham tido um emprego!

Fizemos este breve percurso pela história do trabalho e do emprego, para chegar à carreira.

Etimologicamente, a carreira significava uma vereda, um caminho estreito e difícil de percorrer (ainda persiste hoje o significado de um "carreiro", ou até no espanhol, uma "carretera").

Até há pouco tempo, esse significado estava meio adormecido, já que há algumas décadas encontrávamo-nos numa situação de quase "pleno-emprego". Porém com a crise económica mundial esse significado parece ter regressado para ficar.

Uma definição abrangente de carreira seria um conjunto de tarefas, papéis e desempenhos prováveis, que requerem certas aptidões, conhecimentos, capacidades, interesses e que produzem um conjunto de recompensas (Castro & Pego; 2000 cit in Araújo, 2009).

Simplificando, a carreira é a soma de todas as nossas experiências de trabalho.

Os autores Clarke e Critcher (cit in Araujo, 2009) esclarecem a importância do trabalho e defendem cinco necessidades são satisfeitas pelo emprego: (a) a estruturação do tempo, impondo um determinado grau de organização nos horários das pessoas; (b) a partilha de experiências, fora do contexto familiar, ou seja, a possibilidade de construir amizades e conhecimentos com outras pessoas que não fazem parte da família; (c) a união de indivíduos em torno de objectivos que ultrapassam os seus próprios, ou seja, a colaboração com outros para atingir fins que não atingiriam sozinhos; (d) a obtenção de status e identidade e, por último, (e) o reforço da sua actividade, isto é, sentir que o que faz "vale a pena" e contribuir para algo maior.

Com esta perspectiva é possível perceber que não se trabalha apenas para ganhar dinheiro, apesar de essa ser a razão que, aparentemente, nos motiva mais.

Estes esclarecimentos poderão fazê-lo perceber que o trabalho tem muitas mais funções do que simplesmente reunir capital financeiro.

É ainda mais fácil chegar a essa conclusão se pensar em alguns dos efeitos negativos de não ter emprego (Araújo, 2009): ansiedade, sintomas psiquiátricos, diminuição da satisfação com a vida e da auto-estima, agressividade, problemas conjugais, desânimo, desespero, apatia, perda de identidade, stress, sentimentos de falhanço, etc.

Em conclusão, apesar de nem sempre termos plena consciência disseo, o trabalho enriquece a nossa vida de diversas formas. Assim, em vez de ver o trabalho como sofrimento (ponos), encare-o como a sua criação (ergon), a sua oportunidade de criar algo na humanidade!

Referências Bibliográficas:

Araújo, P. (2009). Os "Inempregáveis": Estudos de caso sobre os impactos psicossociais do não emprego em licenciados portugueses. Dissertação de Mestrado. Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto. Disponível em: http://repositorio-aberto.up.pt/handle/10216/9523

Priberam. Dicionário da Língua Portuguesa Online. Acedido em 2008 e Disponível em http://www.priberam.pt/

Woleck, A. (2002). O Trabalho, a ocupação e o emprego. Uma perspectiva Histórica. Revista de Divulgação Tecnico-Científica do Instituto Catarinense de Pós-Graduação. Acedido em Fevereiro de 2009 e Disponível em: http://www.ea.ufrgs.br/graduacao/disciplinas/adm01156/CONCEITOSDETRABALHOEMPREGO.pdf

Patrícia Araújo

Patrícia Araújo é Escritora, Consultora de RH e Formadora. É Psicóloga (Membro da Ordem dos Psicólogos Portugueses) e Mestre em Psicologia Organizacional pela Universidade do Porto e paralelamente é professora de Yoga., exerce consultas de psicologia (orientação psicologia positiva-humanista), sendo também docente universitária. Contacto: pattaraujo@gmail.com

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