quarta, 31 março 2010

Saiba manter a distância interpessoal

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Já alguma vez lhe aconteceu sentir-se invadido no seu espaço? Já sentiu que alguém se estava a aproximar em demasia de si? Alguém se debruçou sobre a sua secretária ocupando o seu "espaço pessoal"? Já reflectiu se tem uma "bolha" muito pequena ou muito grande?

 

Pois é, penso que todos nós, em certa altura nas nossas vidas já fomos confrontados com uma situação semelhante. Talvez no trabalho, talvez num encontro social ou até numa multidão como, por exemplo, um concerto ou um desfile na rua.

É uma questão de etiqueta organizacional saber manter as distâncias interpessoais correctas para com os nossos interlocutores.

Foi o autor Edward Hall em 1966 que foi pioneiro na reflexão científica sobre o tema do "espaço pessoal" ou distância interpessoal, ou se quisermos, em termos leigos, a nossa "bolha". Após vários estudos empíricos, Hall conclui que as distâncias sociais eram mais ou menos regulares em todas as pessoas, mas posteriormente fez também estudos comparados em diferentes culturas e países.

A "bolha" ou o espaço pessoal refere-se a uma área com limites invisíveis que cerca o corpo de cada um de nós, sendo o nosso território portátil. Essa noção psicológica do nosso espaço é óbvia para todos nós e quando essa "bolha" é invadida fisicamente, normalmente recorremos a técnicas para afastar esse intruso.

Hall propôs quatro tipos de distâncias pessoais na interacção humana:

  1. Distância íntima,
  2. Distância pessoal,
  3. Distância social e
  4. Distância pública.

Os valores em centímetros abaixo apresentados são valores médios, pois cada pessoa tem a sua distância ideal, por isso, há pessoas que têm uma "bolha pequena" ou uma "bolha grande". Contudo isso tem também relação directa com a cultura de cada país (que que sabemos, influi depois na cultural organizacional)

A distância íntima (até aos cinquenta centímetros) é claramente uma distância de um compromisso. Um casal de namorados, pais e filhos ou grandes amigos costumam conviver a esta distância. Estamos completamente expostos: características do rosto, corpo, odor, temperatura, etc. Só deixamos entrar nesta zona pessoas por quem temos afectos e quando esta distância é invadida usualmente as defendem-se com rigidez muscular, olhar penetrante.

A distância pessoal (entre cinquenta centímetros e um metro e meio) não ocorre tanto em formato de bolha, pois exige mais comprimento para a frente do que para os lados ou para trás, pois é no "face a face" que nos sentimos mais invadidos. É a distância que utilizámos quando estamos no elevador com alguém, quando esperamos pelo metro ou numa sala de espera. Se nos sentirmos ameaçados temos tendência a afastarmo-nos um pouco, nem que discretamente.

A distância social (entre um metro e meio e dois metros) é a mais comum em ambientes profissionais, mas é gerida pela pessoa consoante o estatuto das pessoas com que interage. Com chefias há tendência a aumentar o espaço, porém entre colegas de trabalho há tendência a não ser tão grande.

A distância pública (mais de dois metros) é a que utilizamos para estar com desconhecidos e onde agimos mais formalmente. É também utilizada por oradores, ou personagens públicas ou oficiais. É através desta distância que podemos também perceber se nos sentimos bem em multidões ou não.

Como já referimos, tudo depende de pessoa para pessoa. Por exemplo, há pessoas que não se sentem bem na distância pública e desenvolvem até fobia a falar em público. Por outro lado, há quem não se sinta bem com distâncias íntimos o que poderá indicar um medo de compromissos.

A distância íntima ou até a pessoal podem ser condicionadas pelo sexo dos intervenientes. Por exemplo, duas colegas de trabalho mulheres podem aproximar-se mais do que uma colega do sexo feminino ou outro do sexo masculino.

Este assunto está em alta nos últimos anos no meio empresarial, principalmente no que respeita ao assédio sexual no local de trabalho. Este assunto tem sido altamente debatido principalmente nos Estados Unidos que apresentam elevada taxa de assédio.

A título de curiosidade, vejamos alguns estudos actuais. Por exemplo, em 2006, a Comissão sobre Igualdade de Oportunidades dos Estados Unidos recebeu 12.025 queixas de assédio sexual no local de trabalho, sendo que 15,4 % dessas queixas foram apresentadas por homens. Na União Europeia, entre 40 e 50 % das mulheres denunciaram no passado alguma forma de assédio sexual no local de trabalho. No outro lado do mundo, Comissão Australiana de Igualdade de Oportunidades em 2004, mostrou que são as mulheres jovens, solteiras ou divorciadas ou com status de emigrante que são mais vulneráveis ao assédio sexual, enquanto nos homens são os jovens, homossexuais e integrantes de minorias étnicas ou raciais que sofrem mais assédio.

Outros estudos sobre o espaço pessoal mostraram que os homens respondem de modo mais negativo à invasão do espaço pessoal frontal, ao passo que as mulheres respondem mais negativamente às invasões do espaço pessoal provindas da lateral.

Além da distância podemos observar ainda a orientação das pessoas. Duas pessoas que se conhecem há bastante tempo têm tendência a colocar-se lado a lado, enquanto que se existe numa relação de hierarquia, o superior tende a colocar-se frente ao subordinado.

Todavia tudo pode variar de cultura para cultura. Podemos aplicar estes conhecimentos aos cumprimentos para tentar perceber o tipo de distâncias pessoais que podemos utilizar com pessoas estrangeiras.

Por exemplo, no cumprimento inicial de alguém que acabamos de conhecer deve deixar-se uma distância de cerca de dois braços.

Em relações empresariais, os orientais sentem-se bem com cerca de 1 metro de distância, mas por exemplo, os árabes e asiáticos gostam de uma distância maior, enquanto que os latinos até gostam de uma distância menor.

Na maioria dos países, costuma utilizar-se o aperto de mão ou dois beijos na face dependendo do grau de intimidade. Em África é mais comum o aperto de mão nos homens e dois beijos na face entre nas mulheres. Porém, no caso de se tratar de mulheres viúvas não se deve cumprimentar com beijo nem tocando, deve-se apenas acenar com a cabeça.

Em alguns países da Ásia, os cumprimentos fazem-se unindo as próprias mãos. No Japão, país onde o espaço pessoal é muito valorizado, não se toca nos outros e saúda-se curvando a coluna.

Entre árabes e também italianos, o cumprimento usual entre dois homens amigos é a troca de beijos na face.

Na Índia o mais usual é unir as mãos e dizer "Namastê" pois abraços e beijos não são comuns entre mulheres.

Homens árabes, indianos e também africanos que são amigos de longa data frequentemente andam de mãos dadas ou abraçados, pois isso é sinal de grande amizade.

Os homens russos cumprimentam-se dando de 3 a 4 beijinhos na face.

Os esquimós cumprimentam-se esfregando o nariz um no outro enquanto sorriem.

Utilizar distâncias inadequadas em relações laborais pode gerar uma sensação de invasão, abuso e assédio se for usado menos distância do que a aconselhada e sensação de frieza ou indiferença se a distância for demasiado grande.

Estes conceitos devem ser também aplicados à concepção e gestão do espaço dos colaboradores.

As organizações devem reflectir sobre a colocação de secretárias e da iluminação. Por exemplo os chamados "open spaces", muito em voga ultimamente, enfatizam a comunicação entre colaboradores já que favorecem o contacto ocular, mas têm de ter em alguma consideração as distâncias pessoais, por exemplo, colocando divisórias.

A poupança de espaço e colocação de secretárias demasiado próximas, pode criar a sensação de ausência de identidade e invasão aos colaboradores e isto poderá gerar conflitos no trabalho, insatisfação e menor produtividade.

Se em vez do "open space", o colaborador está em zona de trabalho fechada, isto representa um maior estatuto para quem lá trabalha. Daí o facto de se dar elevado valor às promoções que implicam passar a ter um "gabinete próprio"! É sinal de que a pessoa conquistou o "seu espaço" e por aqui conseguimos inferir o quanto valor tem para nós o espaço pessoal!

[Para saber mais, poderá ler a obra original do autor: Hall, Edward T. (1966), A Dimensão Oculta, Lisboa: Relógio D'Água.]

Patrícia Araújo

Patrícia Araújo é Escritora, Consultora de RH e Formadora. É Psicóloga (Membro da Ordem dos Psicólogos Portugueses) e Mestre em Psicologia Organizacional pela Universidade do Porto e paralelamente é professora de Yoga., exerce consultas de psicologia (orientação psicologia positiva-humanista), sendo também docente universitária. Contacto: pattaraujo@gmail.com

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