segunda, 22 março 2010

Vestir é comunicar

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Cada vez que saímos à rua, quer queiramos quer não, transmitimos algo aos outros apenas pela forma como vestimos. "O vestuário é comunicação", afirmou Umberto Eco na obra "A Psicologia do Vestir".

Como indivíduos, podemos vestir-nos da forma que mais nos agrada e apetece, graças a uma liberdade conquistada há algumas décadas. Relembremos que há apenas 40 anos existiam fortes restrições em Portugal quanto à forma de vestir, principalmente no que respeita às mulheres. Chegaram mesmo a existir documentos escritos e oficiais, prescrevendo o tipo de apresentação física e os comportamentos sociais a ser seguidos, por exemplo, por mulheres que exercessem função de professoras (Mónica, 1977). Além disso, sabemos que noutros países algumas restrições ainda existem como, por exemplo, em países de religião muçulmana é comum ser obrigatório (ou aconselhado, consoante a cultura) que as mulheres (mesmo em contexto empresarial) usem um lenço curto na cabeça (chamado hijab), ou um lenço comprido (chamado Chador), ou um tecido que cubra pés e que só permita ver os olhos (o Niqab) ou em casos extremos, uma vez que tapa todo o corpo e tapa também os olhos com uma rede, a actualmente famosa Burqa.

Muitas vezes as proibições não estão escritas mas são socialmente partilhadas, ou seja, é socialmente aceite que todos se vistam de determinada forma e, logo, quem se veste diferente é considerado "desviante" e assim surge a pressão social.

No mundo empresarial, isto também acontece, em parte. Existe realmente uma pressão social para um "vestir executivo". Em alguns países (por exemplo, nos Estados Unidos) essa pressão chegou a um ponto tal que, para aliviar a tensão, foram criadas por exemplo, as "Casual Fridays": um dia, por semana, a organização liberta a/o colaborador/a da obrigação de vestir formalmente!

Sem cair em pressões limitadoras da liberdade pessoal, vamos reflectir sobre o código de etiqueta de indumentária em vigor, ou seja, sobre o que é considerado adequado utilizar no quotidiano profissional.

  1. Limpeza, perfume agradável e não demasiado forte, roupas sem manchas e bem passada a ferro. Cabelos também bem lavados (brilhantes é sinal de saúde capilar), bem cortados, penteados e que nunca tapem os olhos;
  2. A escolha da indumentária, quer em homens quer em mulheres deve ser adequada a cada ocasião. Avalie o tipo de compromisso que terá e depois escolha o conjunto adequado;
  3. A roupa de um profissional deve ter um aspecto semelhante até ao final do dia, por isso, é importante dar preferência a tecidos que amarrotem pouco. Contudo, imprevistos acontecem a toda a hora. No caso das mulheres, devem ter sempre uma blusa ou camisola extra e no caso dos homens um blazer e uma gravata. Se não tem espaço no gabinete, pode deixá-los na mala do carro, devidamente dobrados num saco ou porta fatos;
  4. Obviamente, o essencial são os fatos! Quer homens quer mulheres devem possuir pelo menos 3 a 4 fatos, preferencialmente de cores clássicas, como preto, cinzento, Bordeux. Em caso de não ser uma pessoa de fatos, pode ter vários Blazer clássicos que combinem com várias calças. Seja como for, os conjuntos devem ter poucos "rodriguinhos", ter qualidade, cair bem no corpo, serem confortáveis e funcionais e ter colarinhos impecáveis. O colarinho enquadra o seu rosto, e é para o rosto que mais olhamos quando estamos a trabalhar com outras pessoas;
  5. As mulheres devem evitar cair em modas excessivas, decotes, transparências, roupas demasiado justas ou excesso de acessórios (se vai sair socialmente a seguir ao horário de expediente, deixe alguns acessórios no carro ou na carteira para os momentos informais). As saias nunca devem cair acima dos joelhos, mas sim dois a três dedos abaixo. Deve-se ter precaução na qualidade e quantidade de maquilhagem. Devem também ter cuidado com as sandálias. As sandálias devem ser usadas por pessoas que tenham pés sem grandes "defeitos"... digamos! Por certo não queremos ser rotulados por causa de determinada característica dos nossos pés!
  6. Os homens devem usar preferencialmente camisas de mangas compridas, dobradas (só em caso de calor) e deixar as de manga curta para momentos informais. O punho da camisa deve ficar dois dedos abaixo da manga do Blazer (mas não cair em cima da mão). As calças, devidamente vincadas devem cobrir o peito do pé e não tapar o salto do sapato. A gravata deve tocar o início da fivela do cinto e nunca deve ser usada dois dias seguidos. A gravata de cor única demonstra segurança e estabilidade. Há quem defenda que o pregador de gravata está "fora de moda", mas quem gosta deve usar, desde que seja sóbrio (na realidade, é um objecto funcional porque, por vezes, as gravatas são acessórios sujeitos a acidentes, por exemplo, num jantar de negócios!). Em vez de usar camisa e gravata, podem optar pela camisola de gola alta, de uma única cor, por debaixo do blazer. Devem usar-se meias da cor do sapato ou das calças e de tamanho certo, de forma a que quando se sentar não se veja a pele da perna. Por mais incomodo que seja, a barba deve ser feita todos os dias. Se usar barba mais comprida ou bigode, deve fazer o contorno pelo menos dia sim, dia não;
  7. Há quem defenda que os Jeans são inadequados para o trabalho. Tudo depende da organização em que nos inserimos ou do tipo de encontro/reunião. Se o ambiente geral não é demasiado formal, podem ser usados, desde que devidamente equilibrados, com uma camisa/blusa e um bleyser, seguindo todos os restantes conselhos;
  8. Não se deve descurar os sapatos. Apesar de ser a zona para a qual existe menos probabilidade dos outros olharem, se os sapatos estiverem velhos, com saltos gastos ou mal engraxados, podem comprometer a sua imagem;
  9. Nunca parta do princípio de que gastar um ou dois salários num fato ou num conjunto é bom! Existem realmente bons fatos de marcas caríssimas, mas que podem não lhe cair bem. Além disso, itens que ostentem a marca demasiado vísivel não são adequados para o ambiente profissional: podem denunciar ostentação e arrogância;
  10. As pastas executivas, sejam de portátil ou outras, devem ser de boa qualidade e de cor escura;
  11. Observe a forma como os seus colegas e superiores vestem, sem julgar. Sem ser escravo do Dress Code, tire algumas observações de forma a que nunca se sinta destoar. Se estiver totalmente sem ideias, observe várias revistas com fotografias de homens e mulheres de negócios e tire algumas ideias.

Vestir é comunicar. Ao vestir de determinada forma está a comunicar que tipo de personalidade possui, por isso, esforce-se para que a sua indumentária esteja em harmonia com o profissional quer ser e não com o que quer parecer.

Depois de interiorizar estes princípios, esforce-se por não julgar os outros apenas com base no que vestem, pois também não gostaria que o julgassem. Se acha que a pessoa não está a cumprir alguns princípios básicos e quer agir discretamente pode, por exemplo, reencaminhar este artigo a todos os seus colegas!

[Para explorar mais sobre este assunto, poderá ler a famosa obra "Psicologia do Vestir" de Umberto Eco, Francesco Alberoni e Gillo Dorfles (Editora: Assírio & Alvim - Reedição 1989 Colecção: Arte e Produção)]

Referência

Mónica, F. (1977). Educação e Sociedade no Portugal de Salazar. Lisboa. Presença

Patrícia Araújo

Patrícia Araújo é Escritora, Consultora de RH e Formadora. É Psicóloga (Membro da Ordem dos Psicólogos Portugueses) e Mestre em Psicologia Organizacional pela Universidade do Porto e paralelamente é professora de Yoga., exerce consultas de psicologia (orientação psicologia positiva-humanista), sendo também docente universitária. Contacto: pattaraujo@gmail.com

  • João

    Acredito que um bom vestuário permite a quem olha saber ou perceber a onde se está e para onde se quer ir... Mas ém termos profissionais administrativos acho que deve haver equilíbrio, ie, não se deve vestir a mais do que se é. Nem a menos do que se é. Agora a minha dificuldade é saber onde estou e em que patamar me incluo na organização. Sabendo onde estou e o que sou, devo comparar me com profissionais de idêntica categoria profissional.

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