As you climb the ladder of success, check occasionally to make sure it's leaning against the right wall. - Anonymous
A primeira coisa que me passou pela cabeça quando ele me apresentou a conta da inspecção e as más notícias foi, claro, "Será que estou a ser comido?" (sem segundas intenções). Obviamente, o mecânico mostrou-me algumas notas más em peças que estavam "estragadas", mas tive tanta confiança nisso como no meu conselheiro de investimento, quando ele me mostrou previsões de acções escolhidas a dedo. Como podia sentir-me à vontade com um diagnóstico e uma decisão sobre algo de que não percebia e em que não estava disposto a investir tempo? O google não me podia valer nesta, por isso decidi procurar uma segunda opinião humana. E foi aí que a história ficou pior.
Como já não tinha nenhuma relação de confiança com um mecânico (infelizmente, perdi essa com a morte do meu pai), decidi que a melhor solução seria apelar à pessoa simpática que me tinha vendido o carro. Por isso liguei-lhe, expliquei a minha situação, senti empatia do outro lado e fui remetido para o departamento de apoio técnico.
- Então, - perguntei eu à voz amistosa, ainda que robótica do apoio técnico - quanto é que vai custar um teste e diagnóstico de emissões? - lembrem-se de que já tinha pago uma inspecção completa nesse mesmo dia.
Pausa.
- Vai ficar por €98,50.
- €98,50? - repeti - Como pode ser? Quanto é que custa uma inspecção completa; emissões e segurança?
Pausa.
- Isso custa €45,00.
Eu disse que a história ficava pior.
Por isso, lá voltei a falar com o vendedor simpático.
- Howie, há qualquer coisa de errado com a informação que me deram no apoio técnico.
- Ah, ela é nova. - disse ele - Eu trato disso por si.
Para resumir outra comédia trágica longa, acabei por fazer nova inspecção ao carro, desta vez feita pelo revendedor. E lá voltou a falhar. Mas desta vez, surpresa! Ia precisar de outras peças, com preços diferentes e mais altos para "passar". Além disso, e depois de esperar mais de uma hora, aconselharam-me a gastar centenas de euros noutras peças que ia acabar por precisar de substituir. E para acabar em beleza, apesar do me desagrado expresso, apresentaram-me uma conta que acaba com qualquer relação, €98,50.
A Intenção cria Realidade
Com certeza, a minha história não é única; acontece inúmeras vezes em mercados, todos os dias. E, apesar da ideia inicial, a minha má experiência nada tem a ver com má formação de apoio ao cliente ou à falta dele. Tem tudo a ver com intenção. Aquele revendedor (e digo "aquele" porque já não é o "meu") e os empregados fazem o que fazem todos os dias principalmente para enriquecerem, em vez de criarem riqueza.
E por riqueza, refiro-me a relações ricas e de apoio, com e entre os clientes, proprietários, empregados, fornecedores e vizinhos. Por isso, como o meu caso demonstra, a preocupação deles em enriquecer - essa intenção - acaba por criar a realidade deles; uma realidade de desconfiança, adversa e com tendência a perder lucro.
Mais uma vez, este artigo não serve para atacar os revendedores automóveis (apesar de parecerem realmente o protótipo de como não se criar relações de confiança a longo prazo). De facto, conheço pessoas na minha profissão, oradores profissionais e conselheiros que incentivam as empresas e outros profissionais independentes a nunca baixar os preços ou oferecer conselhos gratuitos. E por que não? Porque isso vai "desvalorizar as marcas", claro. É um óptimo conselho para quem quer enriquecer, mas não é uma abordagem que crie riqueza. Aliás, é uma forma fantástica de fazer com que se veja a marca como uma imagem ou uma transacção, e não uma forma de criar relações mais estreitas com as pessoas que nos rodeiam.
Lembro-me de quando era criança e via o meu pai dar cabo do corpo debaixo do carro dos clientes - o suor a escorrer-lhe da testa, o óleo sempre debaixo das unhas e nas rugas das mãos, que ele depois limpava o melhor possível para colocar no ombro de um cliente e, com um sorriso no rosto, dizia para não se preocupar, estava tudo bem. Era só um parafuso desapertado ou assim. E depois, dizendo que não com a mão, dizia que não queria nada, era uma coisa sem importância. Mas sabem que mais? Era uma coisa muito importante. É a coisa mais importante.
E demorei demasiado tempo a aprender o que ele estava a querer dizer; a transparência, a honestidade, a preocupação dão origem a um crescimento significativo e feliz ao negócio e à vida.
A riqueza cria riqueza
A oficina do meu pai acabou por se tornar numa espécie de santuário, para onde as pessoas viajam quilómetros, levando os carros, os problemas, as sobremesas preferidas e as histórias da vida. E o meu pai achava que a missão dele era cuidar de tudo; ser advogado e conselheiro. Sempre que achava que podia usar os conhecimentos e capacidades para poupar tempo, dinheiro ou saúde a quem lá ia, metia mãos à obra. Aprofundava cada vez mais as relações que tinha, acrescentando produtos, procurando novos fornecedores, fazendo qualquer coisa que acrescentasse valor à vida. Mas, enfim, o meu pai nunca "enriqueceu", seguindo os padrões actuais. No entanto, como se concentrou naquilo que mais importa, na riqueza das relações, conseguiu mais riqueza do que qualquer outra pessoa que já conheci, nos meus mais de trinta anos de actividade.
Por isso, é preciso parar para pensar no motivo por que se faz o que se faz todos os dias. É para simplesmente fazer a conta crescer, para um dia escapar das pessoas e relaxar com a churrasqueira junto à piscina, com gadgets e jogos? Ou será que vê cada dia como ele realmente é, uma oportunidade de acrescentar algum significado, cuidado e paixão à vida e à vida dos outros? Será que está só a passar tempo, para chegar a um amanhã melhor? Ou será que tem noção de que o hoje é a vida e o que importa é a qualidade da viagem com os outros?
Todos queremos paz de espírito, isso é óbvio. E acreditamos que isso se consegue com riqueza, o que é verdade. Mas não é a riqueza ilusória, a que se consegue com as flutuações económicas e as circunstâncias da vida. Antes é algo mais próximo da verdadeira riqueza, a riqueza dos amigos e das relações de confiança. É o tipo de riqueza que floresce e que traz alegria e conforto, nos bons e nos maus momentos.
