A diferença entre liderança e chefia

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Um líder será alguém que o é, na medida em que é aceite, a chefia, por sua vez, não é mais que um atributo hierárquico de aceitação obrigatória.

A questão Liderança vs Chefia dentro das organizações tem sido esplanada ao longo dos tempos, através de várias teorias, algumas das quais apresento posteriormente.

A Teoria Clássica (Taylor, 1903), inspiradora de fórmulas de organização do trabalho e de eficiência dos processos. Procedimentos que pretendiam anular os efeitos do carácter auto-produzido do sistema organizacional. Nesta abordagem a problemática da liderança não possui pertinência, na medida em que este conceito é plasmado pelo conceito de chefia.

Teoria das Relações Humanas (Mayo, 1911), parte do pressuposto de que uma compreensão do significado da liderança deveria emanar da compreensão da figura do líder como algo de características universais. O factor humano é reconhecido como mais do que um simples apêndice da tecnologia.

Teoria das Decisões (Simon, 1957), define os pressupostos que estão subjacentes ao comportamento dos indivíduos em contexto organizacional. Nesta abordagem a organização constitui um complexo sistema de decisões, onde os indivíduos decidem em função da sua percepção das situações e actuam de forma racional e consciente, escolhendo e tomando as decisões, segundo critérios, mais ou menos racionais, de opções entre várias alternativas possíveis.

Processo de decisão implementa-se em etapas, tais como:

  1. Percepção da envolvente do problema a resolver;
  2. Análise e definição do problema;
  3. Definição dos objectivos;
  4. Levantamento das alternativas;
  5. Selecção das alternativas;
  6. Avaliação e comparação das alternativas;
  7. Escolha e implementação da alternativa considerada mais favorável.

Segundo Simon, os indivíduos são incapazes de equacionarem toda a informação necessária a uma absoluta racionalidade de suporte à decisão, dado que esta se baseia num entendimento parcial da situação (conceito de racionalidade limitada). Destaca ainda, que não existem decisões perfeitas, uma vez que as opções decorrem de alternativas diversas e são aferidas em função dos resultados obtidos, numa óptica de eficiência (melhores resultados com menores recursos).

Teoria Sóciotécnica (Emery, 1959), organizações como sistemas abertos constituídos por dois subsistemas fundamentais: o subsistema técnico (matérias-primas, instalações, tecnologia) e o subsistema social (pessoas e respectivas interacções).

O sistema técnico e o sistema social são mutuamente dependentes e influenciam-se reciprocamente, isto é, a natureza das tarefas influencia a forma de dispor e organizar as pessoas, e as características psicossociais determinam cada posto de trabalho.

Torna-se clara a importância da liderança como potencial detonador e guia das múltiplas acções que os diferentes subsistemas organizacionais podem accionar entre si.

Escola Neo-Clássica (Drücker, 1962) O grande desafio da gestão das organizações passa a ser o de compatibilizar duas tendências que possuem lógicas divergentes: uma, a da eficácia, que aponta claramente para resultados, o cumprimento dos seus objectivos, e outra, a da eficiência, que aponta para a gestão dos meios necessários ao alcance dos resultados, ou seja, possibilitar a sustentabilidade e fiabilidade dos resultados alcançados.

Design Organizacional (Weick, 1969) é o que as pessoas fazem nas organizações, mediante o que acreditam que a organização é. O design de uma organização afectará a capacidade de os gestores coordenarem e controlarem as actividades dos colaboradores no sentido de aumentar o desempenho organizacional. Todos na organização devem sentir que os procedimentos emanam de ideias compreendidas, e reconhecidas, por todos como essenciais ao funcionamento racional da organização.

É o entendimento da organização como algo que emerge em resultado e consequência dos actos dos indivíduos em interacção, logo, a organização em constante auto-produção. O líder mais como arquitecto do que como engenheiro (Hammel).

Neste domínio, o planeamento tem uma importância fulcral.

Teoria Contingencial (Lawrence e Lorsch, 1972), as organizações com maior probabilidade de êxito serão as que mudarem mais rapidamente que a envolvente. Não existindo um modelo organizacional de validade universal e a transponibilidade das experiências bem sucedidas está muito condicionada pelo contexto onde se verificam, pelo que, as características inerentes às diferentes culturas nacionais assumem um papel de relevo no desempenho organizacional (Hofstede).

Segundo Hofstede, existem dimensões da cultura nacional a ter em conta pela gestão, entre as quais salientam-se as seguintes:

  • Distância hierárquica: Grau em que a sociedade aceita a desigualdade de poder no seu seio;
  • Individualismo vs. Colectivismo: Predominância na sociedade de valores associados aos interesses individuais, por oposição aos interesses do grupo;
  • Masculinidade vs. Feminilidade: Predomínio dos valores associados ao sucesso do desempenho individual em detrimento de posturas solidárias;
  • Controlo da incerteza: Uma sociedade com elevado controlo da incerteza significa que convive mal com a diferença, com o improviso, com o informal, exigindo a normatividade nos procedimentos.

Teoria dos Sistemas (Kast e Rosenzweig, 1976), Aplicando o estudo do pensamento sistémico de Bertalanffy (década de 50), defende que as organizações são constituídas por sistemas dentro de sistemas, isto é, são constituídas por indivíduos inseridos em grupos, sendo estes subsistemas das organizações. As organizações constituem sistemas abertos, porque o input de energias e a conversão do produto em novo input de energias consiste numa troca contínua entre a organização e o seu meio ambiente. Sendo que os sistemas sociais inerentes às organizações possuem cultura, valores, estruturas, normas, regras e papéis com características específicas.

Concluímos que as várias teorias defendem a importância das tarefas da estrutura, da tecnologia, das pessoas e, mais recentemente, da envolvente. Basicamente posicionam-se numa perspectiva tecnocêntrica e numa perspectiva antropocêntrica.

No primeiro caso, uma tendência para subordinar os procedimentos às exigências da tecnologia, relegando para um plano secundário o factor humano.

No segundo caso, atribuindo uma importância nuclear ao factor humano, subordinando às características e exigências deste os restantes procedimentos.

A liderança terá sempre um importante papel a desempenhar. Optando por estratégias que se entendam em maior conformidade com o que se defina como critérios de eficácia de eficiência de uma dada organização, e das características e tipos de negócios e actividades.

Basicamente o líder entende que todas as pessoas dentro da organização têm valor, e motivam-se pelo que conseguem fazer por si, e não pelo que se manda fazer (chefia).

Modificado em quarta, 29 dezembro 2010 16:58

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