Surpreende ver que a China não é a máquina económica perfeita que parece. É bastante difícil conseguir informação fidedigna, mesmo estando dentro dela, e especialmente sobre problemas que podem afectar a harmonia do país, ideia de bem supremo na sociedade chinesa. Mas há indícios de que as coisas não estão tão bem como parece visto de fora.
Os níveis de endividamento das entidades locais/regionais são bastante altos, e em alguns casos que saem à luz dos meios de comunicação, chegam a ser piores em intensidade que os europeus. O seu projecto emblemático, o comboio rápido, está a ir por água abaixo devido aos problemas técnicos que provocaram mortos este Verão; o nível flagrante de corrupção no Ministério dos Transportes, com endividamento enorme e paralisante. Apenas recentemente o governo aceitou, através dos seus meios de comunicação social, o facto de que talvez a barragem das Três Gargantas esteja a provocar problemas ambientais que antes não foram considerados.
A inflação real (a declarada é outro assunto) retira poder de compra aos chineses, e quem mais sofre é a classe baixa. Possivelmente os chineses, ao contrário do que pensamos os ocidentais, nunca se vão revolucionar por necessidade de pedir democracia. É mais provável que o façam por lhes estarem a tocar na carteira!
Em definitivo, a China precisa de um ritmo de crescimento económico altíssimo para que parte desse crescimento chegue aos que estão na base da pirâmide, e não só às mãos corruptas. O crescimento do PIB próximo dos dois dígitos não é uma opção para o país, é actualmente uma necessidade para manter a ordem e harmonia na sociedade.
Talvez a China já tenha sido uma terra de oportunidades, mas dificilmente ainda o é. Na imprensa ocidental vêm-se exemplos de empresas grandes e já de si poderosas, que fazem bons negócios na China. Normalmente isto não acontece à maioria das empresas que acabam por ter de sair do mercado chinês, não conseguem benefícios ou os que conseguem são tão insignificantes que se vêm obrigados a ter de estar em terra de ninguém.
Realmente, grande parte do que aprendem de nós (ocidentais), já aprenderam. Sabem qual é a nossa forma de fazer negócios, sabem de que produtos gostamos e como cumprir as nossas expectativas. Excepto em sectores tecnológicos muito avançados, na maioria já não precisam de nós. E isso vê-se no dia-a-dia.
Os custos de produção das empresas estrangeiras que produzem aqui, sobe em maior proporção do que a média. Encontramo-nos com leis aplicadas de modo arbitrário, e em muitos sectores, os únicos que as têm de cumprir são os estrangeiros. Dotar uma fábrica com saídas de emergências que nunca existiram, salas de descanso, fardas apropriadas que nunca utilizaram,... tudo isto segundo a lei que obriga os custos a subir. Se a concorrência chinesa no mesmo parque industrial não tem que arcar com estes custos, mais cedo ou mais tarde é forçoso sair do mercado. Isto para não falar directamente da indústria da contrafação, a qual pode copiar algumas marcas estrangeiras, mas não, sob penas muito duras, copiar marcas chinesas estabelecidas no mercado nacional.
É um mercado onde era preciso estar, no passado, para produzir e comprar, agora é para vender para o mercado interno, e dentro de pouco tempo talvez para nada disto. A brutal sobrecapacidade actual das empresas chinesas (as suas exportações já estão em desaceleração) faz com que sobre pouco espaço para os nossos produtos aqui. As barreiras de entrada que existem são difíceis de ver. Em quase todos os sectores que conheço, aos produtos europeus são impostos controles de qualidade, que curiosamente os nossos produtos não passam. Em contrapartida, os produtos chineses como não são submetidos a estes testes, podem estar no mercado. A qualidade, essa sim muito duvidosa.
A classe média, essa suposta utilidade que os EUA lhe ofereceu, ainda tem que florescer. Actualmente a venda de produtos estrangeiros continua concentrada na elite económica chinesa.
Pelo que vi na minha experiência comercial na zona da Ásia-Pacífico, há mercados que não têm tanto nome, onde a luta é menos activa, as barreiras de entrada mais pequenas e onde, sem dúvida, se podem fazer negócios mais facilmente. Apesar de algumas destas economias não crescerem à velocidade de dois dígitos. As populações destes mercados podem ser mais acessíveis que a grande massa chinesa: Hong Kong, Filipinas, Singapura, Coreia, Taiwan, são países onde muitos ocidentais têm experiências de negócio mais agradáveis.
Não obstante, a China está a adquirir um protagonismo mundial merecido. Cada vez tem mais responsabilidades na esfera mundial. O "soft power" de que tanto falam os seus líderes, o "peaceful development" que apregoam, será interessante ver se são aplicados ou não. Talvez desde fora não se veja, dado que são problemas que globalmente não têm significado, mas a forma que a China tem de tratar os contínuos atritos que tem com os países vizinhos na Mar do Sul da China, podem dar algumas pistas. Ao ler os jornais, a maioria das informações e mensagens são de "resolver problemas diplomáticos por métodos pacíficos". Não obstante, em alguns jornais chineses passam a mensagem contrária. Numa das últimas edições de Outubro do Global Times dizia-se que "se os países vizinhos não mudam as suas atitudes contra a China, deveriam preparar-se para o barulho dos canhões". Esta frase vinda de um jornal controlado pelo governo dá que pensar.
De momento são problemas entre vizinhos ou regionais, mas quando chegue o momento de tomar decisões em problemas globais e em maior medida, há que estar atento aos seus movimentos.
O futuro da China não se vê tão brilhante como o seu passado recente. Pelo menos não tão claro. É um país com pressão interna e que cada vez tem mais obrigações fora e onde a frustração dos cidadãos muitas vezes não é ouvida. O crescimento tão rápido dos últimos anos faz com que a China esteja numa situação privilegiada agora, mas pode ser que o país não tenha suficiente flexibilidade para gerir uma primeira desaceleração económica e o seu status de super potência mundial, tudo ao mesmo tempo. Essa flexibilidade podia ser conseguida com uma reforma política de grande envergadura, que adeque as suas estruturas às rápidas mudanças vividas pelo país nos últimos anos. Mas isso ainda não se vê. No ano de 2012 o Partido mudará os seus máximos dirigentes por outros. E não parece que a ala reformista seja a que tem melhor posição nas apostas.

