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Como tomar decisões eficazes

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Mudar de emprego, comprar um carro novo, mudar de casa são decisões que afectam as nossas vidas de uma forma tal que, por vezes, nos sentimos confusos e inseguros.

O impacto destas decisões é grande e duradouro; por vezes, irreversível. Podemos tomar grandes decisões e ganhar ou perder muito com isso. Nas empresas, as decisões são grande parte do trabalho do gestor, diria mesmo que decidir é gerir. Para tranquilizar as nossas vidas felizmente temos algumas soluções que nos ajudam a decidir de forma mais eficaz.

Uma dessas soluções consiste em fazer uma lista de prós e contras sobre uma decisão que tenhamos que tomar. Partindo dessa lista vamos dar uma pontuação de zero até dez aos factores positivos que identificarmos - quanto mais elevado for o valor, mais importante é para nós. Seguidamente fazemos o mesmo para os factores negativos, embora para estes factores, dez signifique uma grande desvantagem.

Por exemplo, se lhe oferecerem um novo emprego longe da sua residência e isso para si é muito aborrecido, pode atribuir a este factor um dez. Caso contrário, se não se importa muito, pode atribuir um valor de dois ou três.

O resultado da decisão é tão simples que pode parecer ridículo: some todos os prós e todos os contras. Se os prós não excederem pelo menos o dobro dos contras, não tome essa decisão ou, pelo menos, pense duas vezes sobre o assunto.

Vejamos então o caso da decisão sobre o novo emprego e como esta ferramenta nos poderia ajudar a tomar uma decisão tão difícil:

Prós Contras
Melhor salário 8 Longe da residência 5
Oportunidade para desempenhar funções mais interessantes 10 A empresa não é muito prestigiada 3
A empresa está num sector com grande potencial de crescimento 6 A mudança de emprego implica deixar um cargo na função pública 4
A empresa oferece boas oportunidades de formação profissional 5
Total de Prós 29 Total de Contras 12


Neste caso, o total de factores positivos é de 29 pontos, mais do dobro do total de contras (24 pontos = 2 vezes 12). Assim, a decisão certa seria avançar para a mudança de emprego!

Esta ferramenta foi apresentada por Seymour Schulich, um grande empresário Canadiano, em vários cursos de MBA e muito criticada pela sua simplicidade. Pessoalmente, acho ideal para quem não quer sofrer de "analysis paralysis", ou mais simplesmente, bloquear e não decidir nada. A simplicidade não significa ineficácia. Pelo contrário, ter um critério objectivo e consistente ao longo do tempo pode ser um grande aliado na tomada de decisões certas

Se gosta mesmo (mas mesmo mesmo) de números, ou se tem uma tendência para complicar as coisas, pode optar por um método um pouco mais sofisticado. É uma ferramenta que tem o científico nome de Analytical Hierarchy Process  (AHP) e foi desenvolvida por um matemático nascido Iraquiano e naturalizado Americano chamado Thomas L. Saaty. Tem sido utilizada para fins tão importantes como decidir onde construir novas fábricas (estudo da Universidade de Cambridge), avaliação do risco na gestão de oleodutos de petróleo (estudo da American Society of Civil Engineers) e no teste dos sistemas informáticos da Microsoft.

Como funciona o Analytical Hierarchy Process (AHP)?

Neste método vamos comparar diferentes alternativas para um dado problema duas a duas usando uma escala de 1 a 9.

Assim, quando comparo duas alternativas, se atribuir um valor de 1 à alternativa a em relação à alternativa b, significa que me é indiferente escolher uma ou outra. Mas se atribuir um valor de 5 à alternativa a em relação à alternativa b, isto significa que prefiro 5 vezes escolher a a escolher b. O que é o mesmo que dizer que o valor de b em relação a a é de 1/5.

A escala de relações seria então definida do seguinte modo: indiferente (1), moderado (3), forte (5), muito forte (7) e extremo (9). Claro que num modelo de cálculo podemos utilizar os valores intermédios 2, 4, 6 e 8, se for necessário.

Então, se tiver de escolher qual o meu próximo carro, dentro de três modelos possíveis, (M1 a M3) poderia construir a seguinte matriz:

M1 M2 M3
M1 1 3 5
M2 1/3 1 2
M3 1/5 1/2 1


O Analytical Hierarchy Process vai determinar as prioridades de cada alternativa através do produto dos valores de cada linha e do cálculo da sua média geométrica. Neste caso, como temos uma matriz de três linhas por três colunas, a média geométrica seria dada pela raiz cúbica do produto dos valores dessa linha. Teríamos então:

  M1 M2 M3 x Pi=³(raiz)x pi=Pi/P
M1 1 3 5 15 2.466 0.65
M2 1/3 1 2 0.667 0.874 0.23
M3 1/5 1/2 1 0.1 0.464 0.12
P=3.804

Neste exemplo simples teríamos as nossas prioridades ordenadas da seguinte forma:
  • M1=0.65
  • M2=0.23
  • M3=0.12

Escolheria o modelo M1, como primeira opção pois é claramente o que tem a pontuação mais elevada.

Agora imaginemos um problema um pouco mais elaborado e também mais parecido com a realidade: Na escolha do meu próximo carro vou ter em conta três critérios: conforto, preço e design.

ahp

Neste caso mais elaborado terei que identificar primeiro a importância de cada critério na minha decisão. Para descobrir isto, vamos fazer uma nova matriz, comparando os critérios dois a dois, questionando-me: "Qual destes dois critérios é mais importante para mim? E quão importante é? Usando a metodologia acima definida iremos calcular a importância de cada um dos critérios. Por exemplo:

  Conforto Preço Design x Pi=³(raiz)x pi=Pi/P
Conforto 1 1/5 1/2 0.1 0.464 0.11
Preço 5 1 7 35 3.271 0.74
Design 2 1/7 1 0.286 0.659 0.15
P=4.394

A partir desta matriz é relativamente fácil de ver que o critério mais importante para mim é o preço. Tem um valor atribuído de 0.74, contra 0.15 ao design e 0.11 ao conforto. Seguidamente terei que fazer uma nova matriz para cada um destes três critérios e julgar como cada um dos três modelos se comporta.
Teríamos então:
Conforto Modelo 1
Modelo 2 Modelo 3 x Pi=³(raiz)x pi=Pi/P
Modelo 1
1 6 1/5 1.2 1.063 0.27
Modelo 2
1/6 1 1/3 0.056 0.382 0.10
Modelo 3
5 3 1 15 2.466 0.63
P=3.911
Preço Modelo 1
Modelo 2 Modelo 3 x Pi=³(raiz)x pi=Pi/P
Modelo 1
1 1/2 8 4 1.587 0.36
Modelo 2
2 1 9 18 2.621 0.59
Modelo 3
1/8 1/9 1 0.0139 0.240 0.05
P=4.448
Design Modelo 1
Modelo 2 Modelo 3 x Pi=³(raiz)x pi=Pi/P
Modelo 1
1 3 5 15 2.466 0.65
Modelo 2
1/3 1 2 0.667 0.874 0.23
Modelo 3
1/5 1/2 1 0.1 0.464 0.12
P=3.804

Podemos ver pela leitura destas matrizes que em termos de conforto, para mim o modelo 3 é o melhor pois tem 0.63 pontos contra 0.27 do modelo 1 e 0.10 do modelo 2. Em termos de preço (aqui é claramente mais fácil de julgar), o modelo 2 é o melhor. E, finalmente, em termos de design o modelo 1 é o que mais me seduz.

Chegados aqui, o que podemos então fazer então com todos estes números? Relembremo-nos que o preço é o factor mais importante para mim. Assim teria que dar uma ponderação a cada um dos critérios e comparar o desempenho de cada modelo em função de cada critério. Tentando não complicar muito, faria uma última matriz antes de tomar a minha decisão final.

Critérios Conforto Preço Design Ponderação
0.11 0.74 0.15
Modelo 1 0.27 0.36 0.65 0.39
Modelo 2 0.10 0.59 0.23 0.48
Modelo 3 0.63 0.05 0.12 0.12

Qual seria a minha escolha então? Ponderando o conforto (11%), o preço (74%) e o design (15%) em cada um dos resultados que cada modelo obteve, optaria pelo modelo 2. Mesmo ficando atrás do modelo 1 em termos de design e atrás do modelo 3 em termos de conforto, o modelo 1 é o que reflecte melhor a ponderação que eu dou a cada um dos critérios e como percepciono o desempenho de cada modelo.

Reparem que determinados atributos são difíceis de julgar quando se toma uma decisão complexa como esta. Ao escolher uma casa, por exemplo, podemos entrar em linha de conta com factores tão abstractos como a proximidade das casas dos nossos amigos ou familiares, a cor, a exposição solar, a paisagem, etc. A teoria do Analytical Hierarchy Process (AHP) capta quer o nosso conhecimento explícito (o preço, por exemplo) quer o conhecimento implícito, permitindo-nos tomar decisões muito mais eficazes. Diria mesmo que este método pode evitar algumas discussões familiares...

Este método, apesar de mais complexo, tem muitas provas dadas quanto à sua eficácia e pode ser usado em decisões com grande impacto nas nossas vidas e nas nossas carreiras: escolher um carro, uma casa, mudar de emprego, escolher um candidato para uma determinada função, etc.

Gostava de ler os vossos comentários e, caso pretendam colocar questões, por favor disponham do fórum!
«A primeira qualidade de um comandante é cabeça fria para receber uma impressão correcta das coisas. Não deve deixar-se confundir quer por boas quer por más notícias.»

Napoleão  Bonaparte, líder francês


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