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Barreiras à inovação

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Dado que a inovação não tem resultados imediatos, existindo sempre um intervalo de tempo entre o início do processo e o retorno do investimento, os seus benefícios são sentidos apenas a médio ou longo prazo, caso a introdução da inovação seja bem sucedida. Na realidade, ao investirem em Investigação e Desenvolvimento (I&D) e inovação, as organizações estão a retirar parte dos lucros de hoje para garantir que continuarão a ter lucros amanhã, para sobreviverem num mercado cada vez mais predatório, tomando deste modo uma atitude proactiva.

Sendo encarada como um meio e não como um fim, em si própria, a inovação traz múltiplas vantagens para as empresas, nomeadamente a fidelização dos clientes, a melhoria da imagem empresarial vanguardista que transparece para o meio envolvente transaccional e a conquista de uma posição diferenciada no mercado. Permite também optimizar processos de fabrico e a modernização tecnológica, podendo inclusive ser considerada uma protecção contra os ciclos económicos. Veja-se o caso da Google que não ficou minimamente afectada pela crise financeira internacional, aliás, muito pelo contrário, apostou ainda mais na inovação e lançou uma nova gama de produtos e serviços que lhe conquistaram uma considerável quota de mercado nos sectores onde actua, nomeadamente através do lançamento do Web Brower Google Chrome, que começa a ameaçar o Mozzila Firefox e Internet Explorer.

Deste modo, a relação custo/benefício da actividade de inovação deve ser considerada no seu envolvimento global. Contudo, é evidente que a dimensão das empresas pode limitar esta perspectiva global: numa empresa de pequena ou média dimensão, um único projecto mal sucedido pode ter implicações dramáticas. Assim, a capacidade de arriscar é em geral maior quanto maior a empresa, pelo que as grandes empresas possuem, por norma, abordagens diferentes de gestão da inovação do que as mais pequenas. É o que acontece também no mundo animal, é a Lei do mais forte, normalmente os maiores predadores são os que mais têm capacidade para arriscar na captura das suas presas, isto é, no que toca na capacidade para investir em inovação, quanto maior for o "predador", maior a probabilidade para assumir o risco, num mercado cada vez mais predatório.

Podemos analisar a veracidade destas expectativas e perspectivar a realidade da inovação nas empresas a partir de dados estatísticos, disponíveis graças a uma iniciativa recente da Comissão Europeia designada "Innovation in Europe - Results for the EU, Iceland and Norway" (Eurostat, 2004). Com base nos resultados apresentados por 458 mil empresas de diversos países, temos a possibilidade de analisar os padrões gerais:

 

  • 44% do total de empresas abrangidas levaram a cabo ao longo do período considerado, sob uma ou outra forma, uma actividade de inovação, tendo esta sido realizada com sucesso na esmagadora maioria das empresas;
  • A proporção das grandes empresas europeias que indicaram ter realizado actividades de inovação é praticamente o dobro da que se verifica ao nível das pequenas empresas (77% contra 39%);
  • As empresas industriais parecem revelar uma mais forte propensão para inovar do que as empresas do sector dos serviços (uma situação que se verifica em todos os países, com excepção da Grécia e Portugal);
  • 29% das empresas europeias com actividade de inovação receberam financiamento público, sendo a percentagem de empresas mais elevada no sector industrial comparativamente com o sector dos serviços;
  • Os elevados custos da inovação, a falta de fontes de financiamento apropriadas e o risco económico excessivo neste tipo de investimento são apontados pelas empresas como os obstáculos mais importantes à actividade de inovação. Para além destes factores de natureza económica, as empresas destacaram ainda a falta de mão-de-obra qualificada como um importante obstáculo à actividade de inovação. Factor este que condiciona muito a inovação no nosso País.

 

Se se encarasse todo o processo de inovação como uma sequência de etapas independentes, as barreiras ao processo de inovação seriam facilmente identificáveis e bem definidas, ou seja, seria mais fácil identificar as dificuldades de obtenção de conhecimentos práticos pela empresa, a dificuldade de rentabilizar investimentos e de aplicar capital em novas aquisições, a dificuldade de obtenção de recursos humanos qualificados, etc.

No entanto, ao admitirmos que a inovação é um processo complexo, com diversas fases interdependentes, no qual interagem realidades multidimensionais e heterogéneas, que se definem consoante as especificidades de cada caso específico, as respostas convencionais não chegam. Apesar disso, podemos agrupar as principais barreiras à gestão da inovação em três grandes grupos:

 

  • De natureza tecnológica (por exemplo, a tecnologia necessária para a produção ainda não está suficientemente desenvolvida ou ainda não existe);
  • De natureza económico-financeira (a tecnologia existe no mercado, mas é demasiado dispendiosa, a empresa não tem recursos financeiros que lhe permitam investir na inovação, etc.);
  • De natureza humana (aspectos mais subtis onde estão intimamente relacionados os processos internos da empresa e a forma de operar dos seus recursos humanos).

 

Embora a inovação seja entendida como um factor crítico para o sucesso das organizações continua a ser encarada, por alguns agentes empresariais, como algo inalcançável, devido ao facto de implicar consideráveis investimentos e mudanças organizacionais. Falamos, por exemplo, do investimento e custos associados às actividades internas de I&D, da aquisição externa de tecnologia, da compra de licenças de patentes, copyright e marcas, da aquisição/manutenção de infra-estruturas e equipamentos, da pesquisa de informações tecnológicas e da contratação de recursos humanos especializados para esta adaptação.

A par das dificuldades de natureza tecnológica e económica, presentes na maioria das empresas, no que toca a investir nesta área, salientamos também as dificuldades de natureza humana que, apesar de dificultarem consideravelmente as actividades de inovação, tendem a ser desvalorizadas ou subestimadas.

Curiosamente, as maiores barreiras à inovação residem dentro das próprias empresas, estando profundamente enraizadas na sua cultura organizacional e rotinas de trabalho, são fruto da própria actividade da empresa e dos mecanismos e relações criadas ao longo da sua actividade, focando sobretudo as:

 

  • Barreiras culturais: preconceitos, falta de cooperação, confiança e espírito de equipa entre colaboradores, resistência à mudança, ambiente de trabalho pouco harmonioso e coeso, etc;
  • Barreiras perceptivas: dificuldade em distinguir o essencial do acessório, tendência para complicar ou simplificar demasiado os problemas, incapacidade de visualizar a questão sob diferentes perspectivas, saturação, ver o que se espera (ou se deseja) ver em vez da realidade, falta de utilização devida dos vários estímulos sensoriais;
  • Barreiras emocionais: medo de errar, receio do "ridículo", incapacidade de tolerar ambiguidade, preferência por julgar ideias, em vez de as gerar, falta de interesse e motivação, medo de ser mal interpretado, etc.;
  • Barreiras intelectuais: escolha inadequada de processos mentais, falta de conhecimentos, dissonância entre as tarefas e as competências, falta de clareza na comunicação, falta de empenho e de capacidade crítica e reflexiva.
Todos estes factores fazem de atrito à inovação, na medida em que todos eles apontam numa direcção, a de não inovar. Contudo, e apesar de todos estes factores desmotivadores para os que investem, ainda existem muitas empresas por todo o mundo e no nosso país que apostam fortemente em inovação e I&D. Temos de as louvar!

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