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Somos empreendedores?

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Portugal atravessa mais um ciclo económico, provocado pela entrada de novos concorrentes globais no mercado, altos preços do petróleo e a crise financeira, entre outros factores. Mas até que ponto tem sido a nossa capacidade empreendedora capaz de substituir os velhos modelos de negócio que agora desaparecem e impulsionar a economia? Que obstáculos encontram os empreendedores e que caminhos poderemos seguir?


Neste artigo abordamos o estudo do Global Entrepreneurship Monitor (GEM) sobre o estado do empreededorismo em Portugal.

Comecemos pela definição de empreendedorismo. O termo resultou de “Entrepreneurship”, que por sua vez derivou do francês “entreprende”. Ao analisar as várias definições existentes para o termo, encontramos alguns aspectos comuns, principalmente no que diz respeito ao comportamento empreendedor, nomeadamente:

  • Iniciativa para criar um novo negócio
  • Paixão pelo que faz
  • Utilização de recursos disponíveis de forma criativa transformando o ambiente social e económico;
  • Conhecer os riscos calculados e a possibilidade de fracassar.
O empreendedorismo é de extrema importância pois contribui para a criação de empregos, para o crescimento económico e é crucial para a competitividade. As iniciativas empreendedoras, quer seja através da criação de novas empresas quer reorientando uma já existente, elevam a produtividade e aumentam a pressão competitiva, forçando as outras empresas a reagir através da melhoria da eficácia ou introduzindo algum factor de inovação.

O aumento da eficácia e a inovação dentro das empresas, bem como a melhoria da organização, processos, produtos, serviços ou mercados, eleva a força competitiva da economia como um todo trazendo, deste modo, benefícios aos consumidores através de um maior leque de escolha e baixos preços. A criação de novas empresas leva à criação de empregos, ao investimento nas economias locais, realça o ambiente competitivo e a promoção de métodos e ferramentas de negócios inovadoras.

Também o potencial humano é despoletado pelo empreendedorismo. Uma vez que uma ocupação não é só uma maneira de ganhar dinheiro, as pessoas têm outros critérios nas suas escolhas de carreira, tais como a segurança, nível de independência, variedade de tarefas e interesse pelo seu trabalho. Ser empreendedor pode dar a perspectiva de uma melhor posição. Além disso, muitas pessoas optam por carreiras empreendedoras porque ao fazê-lo parecem receber maiores recompensas, tanto a nível económico como psicológico, do que teriam noutras empresas.

O empreendedor é alguém que cria algo novo, algo diferente, que modifica ou transforma valores, procurando sempre a mudança, reagindo-lhe e explorando-a como sendo uma nova oportunidade. Ou seja, o empreendedor é aquele que faz as coisas acontecerem, se antecipa aos factos e tem uma visão futura da organização.

O programa de investigação GEM (Global Entrepeneurship Monitor - 2004) é uma avaliação anual do nível de actividade empreendedora nacional e internacional. Infelizmente, através deste estudo podemos verificar que a situação do empreendedorismo em Portugal não é das melhores. O nosso país apresenta uma das mais baixas taxas de empreendedorismo (3,9%), tendo apenas taxas mais baixas a Suécia, Bélgica e Eslovénia. Este facto deve-se sobretudo a quatro factores:
  • Dificuldades de acesso ao financiamento e insuficiente divulgação da informação nas diferentes fontes financeiras disponíveis;
  • Desequilíbrios no planeamento do programa governamental;
  • Insuficiente educação para o empreendedorismo e métodos de ensino ineficazes;
  • Subdesenvolvimento na quantidade e qualidade dos serviços comerciais e profissionais.
Para além dos factores acima apontados, existem ainda outros constrangimentos estruturais em Portugal que dificultam o estímulo do empreendedorismo, designadamente: impostos altos sobre as novas empresas e sobre aquelas que estão em crescimento, regulamentos excessivos e a falta de uma cultura nacional, que enfatize as responsabilidades dos indivíduos e o correr riscos empresariais.

Contudo, tem-se verificado actualmente, um aumento no nível de consciência do Governo sobre a necessidade de empreendedores, o que se traduz na tomada de políticas benéficas para os empreendedores em geral. Existe ainda assim, apesar da introdução de políticas como a criação de empresas na hora e centros de formalidades das empresas, a percepção de que o tempo dispendido com burocracias tem como resultado interacções ineficientes entre as agências governamentais e os empreendedores.
Para inverter a tendência e aumentar a taxa de empreendedorismo em Portugal é necessário tomar certas medidas, nomeadamente:
  • O Governo deverá ter uma função mais importante no desenvolvimento de um mercado transparente de capital de risco;
  • A criação de mais parques de ciência e incubadoras de negócios pois estes desenvolvem as infra-estruturas físicas, comerciais e profissionais necessárias para um empreendorismo inovador. São necessários mais grupos para difundir os parques de ciência e as incubadoras de negócios por todo o país, permitindo o seu acesso a diferentes regiões e populações.
  • É necessária uma melhoria dos canais de comunicação para permitir uma transferência tecnológica efectiva e eficaz das Universidades e centros de investigação para o sector industrial.
  • A criação de políticas governamentais com discriminação positiva em relação às “start-up” nos primeiros anos de vida,
  • Reformar o sistema educativo, nomeadamente, os métodos de ensino e os programas curriculares. Deveria aumentar o número e a qualidade de disciplinas/módulos relacionados com o empreendedorismo e os métodos de ensino deveriam fomentar o pensamento criativo e inovador (características empreendedoras por excelência). Torna-se indispensável a implementação destas medidas em todos os graus de ensino de maneira a influenciar a atitude de professores, alunos e público em geral.
Outro aspecto a realçar é que os empreendedores Portugueses devem ter cabeça fria e não cultivar ilusões de facilidade, pois as expectativas colocadas na criação de empresas são muito superiores às barreiras que depois vão ser encontradas na realidade nacional.
Portugal apresenta mesmo uma das mais altas taxas de natalidade empresarial da Europa, mas o problema reside no facto que a taxa de mortalidade infantil empresarial ser também muito elevada. A dificuldade aqui reside na qualidade e sustentabilidade da iniciativa empresarial.

Deste modo, e para que o empreendedorismo possa ser uma mais valia tangível na recuperação económica, há que apostar na formação de empreendedores, ou seja, utilizar a formação como uma ferramenta indispensável, não só de criação, mas principalmente, de consolidação das novas empresas.

Uma vez que a criação de novos negócios obriga ao domínio de um conjunto de competências diversificadas, devem ser criados percursos formativos específicos. Nestes, deverá ser utilizado, se possível, um modelo de formação assente numa filosofia de carácter eminentemente prático, monitorizada por uma equipa de formadores com grande experiência profissional e vários trabalhos desenvolvidos no domínio da criação de negócios de base tecnológica. Este modelo permitirá formar empreendedores despertos para os perigos do mercado, criando também mecanismos indutores à criação de novas ideias e de desafios renovados.

Neste âmbito seria igualmente indispensável lançar um ciclo de seminários de dinamização junto dos estabelecimentos de ensino superior, pois apostar na criação do próprio emprego é cada vez mais a porta de saída para o mundo do trabalho.

O momento actual pode ser denominado de “Era do Empreendedorismo”, pois são os empreendedores que estão a suprimir barreiras comerciais e culturais, diminuindo distâncias, globalizando e renovando os conceitos económicos, criando novas relações de trabalho e novos empregos, vencendo paradigmas e gerando riqueza para a sociedade. Os números são claros: 99,9% das empresas portuguesas são micro, pequenas ou médias empresas, que representam 75% do emprego e 70% do produto.

O empreendedorismo surge como condição básica para uma economia desenvolvida e sustentável.

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