1- Vou correr risco de vida!
Na minha experiência de alguns anos em Angola, posso dizer-lhe, sem sombra de dúvida que nunca senti risco de vida! Vivi pouco tempo em Luanda e percorri 9 das 18 províncias de Angola. Muitas vezes num carro, no escuro da noite, em picadas, em praias desertas e nunca me senti ameaçada. Acampei em sítios remotos e até tive avarias no carro no "meio do nada", sem rede de telemóvel e fui acolhida e sempre ajudada!
Luanda é uma capital e, como qualquer capital do mundo, apresenta um nível de criminalidade mais elevado. Da minha análise pessoal, considero os angolanos pessoas bastante afáveis e amáveis, sempre disponíveis a ajudar e bastante solidários.
Como já venho a afirmar noutros contextos, se você é uma pessoa que vive com medo que tudo lhe aconteça, então em qualquer sítio viverá esse medo. As pessoas projectam as suas crenças no mundo que as rodeia.
Se você tem receio de ser assaltado ou algo assim, mas quer mesmo trabalhar em África, então não concorra às grandes cidades ou capitais, mas sim às províncias.
2- Não vou ter cuidados de saúde!
Os cuidados de saúde em território angolano melhoram a cada dia que passa. Sempre fui bem recebida e tratada em todas as clínicas a que recorri, porém, é mais aconselhado recorrer a serviços privados do que públicos (o que já acontece um pouco por todo o mundo, inclusive em Portugal). É aconselhado que a sua empresa contratante lhe ofereça seguro de saúde e que tenha particular cuidado na condução. Existe uma elevada taxa de acidentes de viação em Angola e, aí sim, tema pela rapidez de resposta dos serviços de emergência.
Em particular, temos o caso das crianças. As crianças têm um sistema imunitário em desenvolvimento e, logo são sujeitas a mais doenças e infecções. Tenho sempre à mão um contacto de um médico em Angola e, de preferência, um médico em Portugal que atenda via telefone. Leve consigo bastante medicação, pois em Angola, apesar da oferta de farmácias ser bastante, nem sempre encontrará um determinado medicamento.
3- Vou passar a vida na praia!
Quem vai para a praia regularmente em Portugal, conseguirá fazê-lo sempre em qualquer sítio do mundo. A praia está ali, a olhar para si e, por vezes, isso basta. Tomar um cafezinho ao fim da tarde, com a temperatura mais amena, numa praia de Benguela ou na ilha de Luanda, é uma sensação de restauro do cansaço inigualável. No entanto, no trabalho, aparecem muitos mais obstáculos com que lidar e, logo, nem sempre ir para a praia é exequível.
4- Lá "vou ser alguém"
Este é um problema endémico, é do seu interior e não está relacionado com o local ou país para onde vai trabalhar. O reconhecimento profissional é algo pelo qual todos nós lutamos mas a linha limite desenha-se na elevação do EGO. Enquanto que há umas décadas vivíamos numa sociedade centrada na família, hoje em dia parece que o reconhecimento profissional se tornou o centro das nossas vidas (apesar de, ironicamente, muitas pessoas dizerem que a família está em primeiro lugar, muitas vezes não está).
Num país em desenvolvimento, sentir-se-á útil e gratificado. Ainda hoje lembro muitas pessoas do Lubango e de Benguela que apostaram e participaram nas minhas iniciativas e, no final, os elogios que recebi quase me faziam chorar de felicidade. Isso também acontece em Portugal ou noutro sítio qualquer, mas quem nunca se sentiu reconhecido, possuindo muitas vezes baixa auto-estima e baixo auto-conceito, encontra esse caminho mais facilitado em países onde está tudo por fazer. Se precisa de ir para fora para descobrir as suas competências e capacidades, vá. Mas não se esqueça que é você que tem de manter esse nível de automotivação e crença e si próprio: se esses níveis continuarem assim, você vai andar atrás da "palmadinha nas costas" todas as semanas e isso não existe em lado nenhum do mundo! Alimente as suas capacidades, acredite em si, e quando o seu EGO estiver "lá em cima", aproveite esse momento para beber esses sentimentos, pois eles vão passar, mas desça do pedestal falso e externo que criou para si. Você tem de encontrar um pedestal interno, onde se colocar a si próprio.
5- É muito difícil gerir recursos humanos em Angola
Mais dedicado a quem vai exercer cargos de gestão ou investir, este ponto tem alguma discussão. Obviamente, este mito tem algum fundamento. A taxa de não-emprego (penso que é mais correcto do que desemprego) rondava, há pouco tempo, os 40%. Angola ainda não é uma sociedade obcecada pelo trabalho e isso tem aspectos positivos (a Europa também deve aprender algo com isto!).
A taxa de absentismo e de turn-over/rotatividade é elevada, devido a diversos factores culturais (por exemplo, a forte importância atribuída aos óbitos das pessoas é geradora de muitas faltas ao trabalho, mesmo quando a lei geral do trabalho não prevê faltas como, por exemplo, óbito de primos, vizinhos, etc.). A flexibilidade dos gestores de recursos humanos é indispensável mas também a criação de regras internas claras, concretas e iguais para todos os colaboradores (de qualquer nível hierárquico).
No Lubango, tive oportunidade de gerir uma organização com dezenas de trabalhadores de várias formações e origens e considero uma experiência de sucesso! Até já escrevi sobre esse assunto aqui no Portal e pode ler o artigo integral AQUI.
Gestores autocráticos e radicais, não terão sucesso em África... porém, na minha opinião, não terão sucesso em lado nenhum, a longo prazo!
Durante muito tempo fui coordenadora de uma licenciatura em gestão de recursos humanos em Angola e isso fez-me acreditar que a motivação dos angolanos de cada dia fazer mais e melhor pela qualidade do trabalho é bastante elevada.
Um outro factor, do qual já falei anteriormente, prende-se com o clima. Não espere o mesmo tipo de comportamento (por vezes até acelerado de mais) dos europeus. O clima lentifica qualquer ser humano e o ritmo de trabalho tem de ser obrigatoriamente mais calmo.
Espero que este grupo de dois artigos sobre os mitos de trabalhar e viver em Angola o tenha ajudado a repensar a sua postura e crenças.
Se achar que existem mais mitos ou se você próprio os tiver, escreva-me!

