Numa altura em que quase todos os artigos que se publicam referem a grande competitividade nas carreiras das organizações actuais, é inevitável falar de como ganhar a vantagem face aos outros. Claro que a nossa sensação de sucesso ou fracasso é também relativa, pois o que significa para uma pessoa ser bem sucedido pode não o ser para outra. O nosso sucesso mede-se directamente pela medida em que acreditamos em nós próprios: é mesmo tão simples como isso.
Não é fácil auto-promover-se se não acreditar realmente nas suas capacidades. Como poderia ser fácil? Faça um exercício de marketing simples: Pense num prato gastronómico que deteste. Já pensou? Imaginemos, por exemplo, "Favas estufadas" (que é algo que pessoalmente não gosto). E agora, o exercício é: tente vendê-lo a um amigo, ou seja, tente convencê-lo a todo o custo que "Favas estufadas" é o seu prato preferido e que é óptimo! Difícil, não é?
Pois é, isso também acontece consigo. Como é que você pode fazer com que os outros acreditem que você é um excelente profissional, se a aquela sua "voz crítica" continua a aparecer de vez em quando a dizer que há sempre alguém melhor que você? A lembrá-lo que você nunca fez isto ou aquilo muito bem e que, logo, não é merecedor de sucesso?
A mudança tem de começar por si. Quando você decidir que merece algo, passará a merecê-lo. Numa primeira fase, comece por questões exteriores, já amplamente debatidas como é o caso do marketing pessoal: cuidados na indumentária, na linguagem corporal, na comunicação com os outros, na auto-apresentação em geral. Depois, vem a tarefa mais difícil. O seu interior. Mudar as suas crenças mais íntimas pois são elas os seus grandes obstáculos. Tentar fazer os outros pensar que você é autoconfiante, ou seja, fingir que acredita em si próprio não vai funcionar, a não ser que já tenha um Óscar ou um globo de ouro na sua prateleira lá em casa!
Depois de muito reflectir a este respeito, no campo das ciências humanas, há quatro conceitos essenciais que acho que devemos estar conscientes e aos quais decidi chamar dos "4 A's": o auto-conceito, a auto-estima, a auto-confiança e a noção de auto-eficácia.
O auto-conceito é a noção que temos de nós próprios. Neste caso, temos de focar a nossa atenção no auto-conceito de trabalho. O nosso auto conceito vai sendo formado ao longo da nossa infância e depende também da cultura e da sociedade em que estamos inseridos. O auto-conceito é, no fundo, um conjunto de ideias, crenças e imagens acerca de nós próprios e do que somos capazes. O auto-conceito de trabalho é composto pelas ideias que temos acerca de nós próprios como profissionais, é o que forma o nosso "eu" profissional. Obviamente, se eu acho (componente psicológica) que sou incompetente e incapaz, vou agir (componente comportamental) dessa forma ou vou agir tentando constantemente ultrapassar o que acho que sou.
A auto estima está interligada com o auto-conceito, porém esta tem sempre uma componente afectiva, ou seja, gostar ou não gostar. A auto-estima é o conjunto de crenças afectivas que temos acerca de nós próprios. Quanto mais "gostarmos" de nós próprios, melhor nos sentirmos connosco próprios. No entanto, ter uma autoestima elevada pode ser um traço de personalidade estável (que é o que mais interessa a todos nós) ou pode ser apenas algo passageiro. Muitas vezes, em momentos de sucesso profissional, sentimo-nos orgulhosos de nos próprios e a nossa auto-estima sobe, porém, se esta autoestima for frágil, terá tendência a baixar.
A autoconfiança é uma palavra mais conhecida por todos. Agir com verdadeira autoconfiança implica ter construído um bom autoconceito e uma elevada autoestima. Ter autoconfiança significa ter uma atitude positiva face às suas próprias capacidades e face ao seu desempenho. É a convicção de saber que se consegue levar uma tarefa a cabo e de fazê-la bem.
Por ultimo, um conceito mais invulgar, o de auto-eficácia. Para Albert Bandura (1977), reputado autor da psicologia, o conceito da auto-eficácia refere-se à avaliação que uma pessoa faz da sua capacidade de realizar uma determinada tarefa. Bandura defende que as pessoas que se percepcionam como capazes de realizar uma determinada tarefa (ou seja, que possuem alta auto-eficácia), fazem muito mais esforço para realizá-la, têm muito mais motivação para concluí-la e persevera mais tempo na sua realização do que outras pessoas com baixa auto-eficácia.
Bandura defendeu quatro fontes possíveis para a auto-eficácia. A fonte mais importante é o próprio desempenho da pessoa nas tarefas em um determinado domínio (ex. se você realizou várias tarefas bem no trabalho, provavelmente irá incorporar este bom desempenho na sua auto-avaliação como trabalhador, e logo, a sua auto-eficácia no trabalho subirá). A auto-eficácia também pode ser influenciada pela observação do desempenho de outras pessoas, que nos podem fazer reflectir que poderíamos fazer algo melhor ou pior do que os outros. Uma outra fonte de autoeficácia é a persuasão verbal de outras pessoas, que podem nos convencer que somos ou não capazes de realizar algo e, por fim, os estados fisiológicos também pode afectar nossa auto-eficácia (se nos sentimos ansiosos face a determinada tarefas, podemos correr o risco de concluir que nos sentimos assim porque não somos capazes de realizá-las, o que poderá sem sempre ser correcto!).
Note-se que estamos a falar de trabalho. Uma pessoa pode ter excelente auto-conceito, auto-estima, autoconfiança e julgar-se eficaz, por exemplo, como pai de família, e, no trabalho, ter os níveis de todos estes constructos bastante baixos!
Em conclusão, o mais importante a reter, é que tem de acreditar em si próprio, com consciência que cada momento de trabalho vai ser processado por si e vai ser incluído no seu auto-conceito, e você vai atribuir-lhe determinado valor (auto-estima) e isso vai fazer com que passe a acreditar que é mais capaz ou menos capaz (sensação de auto-eficácia). Para construir uma boa auto eficácia, tem de atribuir todos os seus sucessos a si próprio e deixar frases como "foi sorte de principiante" ou "aconteceu-me a mim, poderia acontecer a qualquer outro" de lado! E não se culpabilizar cada vez que acontece algo menos perfeito!
Referências Bibliográficas
Bandura, A. (1997). Self-efficacy: The exercise of control. New York: W.H. Freeman
