Independentemente destas categorias, há quem se deixe afectar pelo trabalho e há quem consiga sair do trabalho e viver a vida sem pensar mais nele.
Há algumas décadas surgiu a noção de "stress" causado pelo trabalho. Desde aí, a palavra "stress" entrou no nosso vocabulário com uma velocidade alucinante. Acho que não há nenhum trabalhador português que não saiba o que significa a palavra "stress"! Surgiu então a necessidade de traduzir este estrangeirismo para uma forma aceite pelos linguistas, e apesar de poder parecer estranha, a forma correcta de escrever "stress" é: estresse (que passaremos a adoptar).
Vejamos o que indica o Novo Prontuário Ortográfico (Pinto, 2005:pág. 222):
"Stress" (do Inglês): estresse, tensão: Palavra de aparecimento recente que tem um conteúdo muito próprio, ligado à pressão ou tensão a que hoje em dia estamos submetidos. Cremos que é necessário oficializar o neologismo, que já é de uso corrente no Brasil
Com a evolução do conceito, caiu em desuso a expressão "estresse no emprego" ou outras semelhantes, e passou-se a utilizar a expressão correcta de "estresse ocupacional", pois algumas pessoas podem não ter emprego, ou trabalho remunerado (ex. Serem trabalhadores voluntários) e sofrerem igualmente de estresse ocupacional.
O estresse ocupacional pode estar relacionado com factores externos à pessoa (ex. más condições de trabalho), ou com factores internos à pessoa e seu ambiente (ansiedade, problemas familiares, etc.)
Em suma o estresse ocupacional surge quando surge uma diferença entre as exigências a que uma pessoa é submetida e os recursos dispõe para atingir essas exigências, o que poderá originar um desequilíbrio psicológico.
Existem pessoas que desenvolvem competências de gestão do seu estresse e muitas vezes conseguem pô-lo a seu favor, fazendo com que o estresse melhore o seu desempenho, enfrentando essas situações como desafios a ultrapassar. Outras pessoas que não conseguem enfrentar este obstáculo acabam por desenvolver piores desempenhos no trabalho e até outras doenças (ex. dores de cabeça, dores lombares, ansiedade patológica, etc.)
Também já há muitos anos que ouvimos a expressão americana "Workaholic", ou seja uma pessoa que é viciada em trabalho (adaptação da "alcoholic", que significa alcoólico). Depois de muito reflectir, concluo que esta expressão não tem palavra equivalente na língua portuguesa. Porém, os "workaholics" são usualmente pessoas que gostam muito do trabalho que desenvolvem e acabam por menosprezar fortemente outras áreas das suas vidas. Talvez sempre tenham existido pessoas viciadas em trabalho, porém nesta nova época de grande competitividade e até ganância, o problema começa a agravar-se.
Recentemente, um outro conceito começou a atravessar o mundo. Outra palavra que não tem equivalente na língua portuguesa: "Karoshi", que em Japonês, significa "morte causada por excesso de trabalho".
Esta palavra apareceu pela primeira vez após a II Grande Guerra (Lima, 2008) durante a reconstrução do país. Em 1969 (altura em que era comum o dia de trabalho no Japão ter de 12 horas ou mais!) surgiu o primeiro caso de "karoshi" num trabalhador com menos de 30 anos que morreu de repente como consequência de um enfarte cerebral depois de ter estado mais de 40 dias consecutivos a trabalhar!
Nos anos 80 colaboradores trabalhavam sob enorme estresse e começaram a morrer de forma imprevista e brusca nos seus postos de trabalho. Foi apenas nos anos 90 que alguns familiares de vítimas de Karoshi começaram a interpor acções judiciais e em consequência disso o governo criou legislação que penaliza empresas com jornadas de trabalho excessivas, porém, muitas delas continuam com a prática de 12 ou mais horas por dia, e muitas vezes, os trabalhadores não são remunerados!
As estatísticas indicam que, em 2006, 355 trabalhadores adoeceram gravemente por sobrecarga de trabalho e cerca de 150 morreram. As indemnizações do governo para os parentes de uma vítima de "karoshi" podem chegar a 20 000 dólares por ano, enquanto que as empresas podem ter de avançar com uma compensação de um milhão de dólares.
Como ecologista convicta (o meu carro é um híbrido!), senti uma enorme sensação de ironia e tristeza quando li que um trabalhador japonês chamado Uchino, morto por Karoshi, trabalhava no departamento responsável pela construção do Prius, o carro ecológico de (híbrido) da Toyota.
O Japão é uma sociedade colectivista, marcada por características de sacrifício pessoal e trabalho pelo bem de todos e do país, e o que parece ser uma excelente qualidade...pode matar!
Mas não se pense que é fenómeno exclusivo do Japão. Na Coreia, onde parece estar a emergir o mesmo problema também já existe palavra que para a morte por excesso de trabalho: "Gwarosa".
Os japoneses têm também uma outra expressão curiosa: "Gakurekibyo", ou seja a "doença do diploma". Neste caso, é aplicável aos jovens e ao seu esforço excessivo de obterem as melhores notas nos diplomas! Relatam-se consequências graves como por exemplo, obesidade, hipertensão ou excesso de colestrol.
Resta reflectir sobre Portugal. Haverá "Karoshi" em Portugal? Reparem que não falamos em morte por acidente de trabalho, mas por excesso de trabalho que leva a derrames, AVC's e ataques cardíacos! Será que algum dia poderemos convencer o governo português que algumnas ataques cardíacos se deveram a "Karoshi"?
Quanto ao "Gakurekibyo", acredito realmente que este problema já existe em Portugal. A luta pelas médias de conclusão do ensino secundário para aumentar a cada dia. Por um lado, surgem jovens cada vez menos interessados em andar na escola e por outro, há pessoas a terminar o ensino secundário com média de 20 valores (o que no meu tempo, não existia!).
Estaremos a construir uma sociedade obsessiva? Onde os números conta demasiado? Seja o número de horas que se trabalha seja a média que são impressa no diploma?
Já há muito tempo que temos no nosso vocabulário a expressão "matar-se a trabalhar"...Alguém tem sugestões sobre qual seria uma boa palavra para "morte por excesso de trabalho" em português?
Referências Bibliográficas:
Lima, R. (2008). Karoshi: a morte por excesso de horas extra. 09 de Janeiro. Acedido em Abril de 2010 e disponível em: http://www.srcoronado.com/smf/index.php?PHPSESSID=e9e3063c431543c2e8a0c6618f065550&topic=8844.msg71105#msg71105
Pinto, J. (2005). Novo Prontuário Ortográfico.6ª Edição Revista. Lisboa: Plátano Editora
