Nessa notícia (uma excelente notícia para variar!), afirmava-se que as indústrias criativas estão em grande desenvolvimento no Norte de Portugal, estimando-se que existam na região norte cerca de 2823 empresas, dedicadas a 11 áreas de actividade, com um volume de negócios aproximado dos 815 milhões de euros (Lima, 2010).
Um outro estudo realizado (apenas) no Norte de Portugal em 2008 pela Fundação de Serralves, como o apoio da Comissão de Coordenação para o Desenvolvimento da Região Norte (CCDR-N), concluiu que havia emprego nas indústrias criativas para cerca de 11 668 pessoas.
Confesso que fiquei especialmente contente pelo Norte de Portugal (sou nortenha e logo, temos de ser um pouco "bairristas"!).
Então, umas indústrias são criativas e outras não? Realmente todas as indústrias podem usar a competência de criatividade, porém a palavra-chave "Indústrias Criativas" surgiu para designar especificamente sectores nos quais a criatividade é uma dimensão essencial do negócio (Bendassolli, Wood, Kirschbaum & Pina e Cunha, 2009).
Outros autores definem de outra forma (Howkins, 2005 cit in ibidem): "é mais coerente restringir o termo ‘indústria criativa' a uma indústria onde o trabalho intelectual é preponderante e onde o resultado alcançado é a propriedade intelectual".
Vejamos então um pouco da história. Em meados dos anos 40, autores alemães utilizaram pela primeira vez a noção de "indústrias culturais", para caracterizar as actividades culturais que, apesar de não serem financiadas pelo sistema público, geravam empregos e riqueza para o país. Com a ascensão da tecnologia nos anos 90, a noção de "indústrias culturais" tornou-se insuficiente.
O conceito de "Indústrias Criativas" surgiu na Austrália, no início da década de do século XX, porém foi na Inglaterra que ganhou maior impulso já que este país levou a cabo um estudo detalhado das actividades criativas e tem presentemente um Ministério das Indústrias Criativas (ibidem).
Na ausência de um estudo detalhado adequado a Portugal e de forma a exemplificar que empresas são consideradas "Industrias criativas", recorremos a esse mesmo estudo inglês. O governo inglês considera indústrias criativas as seguintes: publicidade, arquitectura, mercado de artes e antiguidades, artesanato, design, design de moda, cinema, software, softwares interactivos para lazer, música, artes performativas, indústria editorial, rádio, TV, museus, galerias e as actividades relacionadas às tradições culturais.
Ainda segundo os autores Bendassolli, Wood, Kirschbaum & Pina e Cunha (2009) podemos considerar que as indústrias criativas reúnem algumas características particulares.
Em primeiro lugar, vivem essencialmente de criatividade
Em segundo lugar há lugar a uma valorização da arte pela arte. Em relação a este ponto é necessário reflectir que nas indústrias tradicionais dá-se mais valor à racionalidade, aos instrumentos e ao resultado final, enquanto que nas indústrias criativas o foco principal esta nas concepções estéticas e artísticas. Como se poderá imaginar, isto pode originar situações conflituantes, foi estas industrias vivem entre querer mostrar essa arte mas, ao mesmo tempo, querer viver dessa arte (realizar capital) o que pode por vezes, não ser tarefa fácil.
Em terceiro lugar, predomina hoje em dia nas indústrias criativas um forte uso de novas tecnologias, já que estas tiveram (e têm ainda) um papel importantíssimo na divulgação das criações. Hoje é possível uma pequena companhia de teatro ou artista divulgar as suas obras num nível semelhante a uma grande empresa.
Em quarto e último lugar, surge uma característica que é de enorme valor e que muitas organizações inovadoras tentam também aplicar às indústrias tradicionais: o uso de equipas multidisciplinares e polivalentes. Se pensarmos na produção filme ou de uma peça de teatro facilmente conseguimos imaginar a quantidade de especialistas de diversas áreas que são necessários a uma produção destas.
É relevante também reflectir sobre o produto gerado pelas indústrias criativas. O que é produzido por estas indústrias criativas tem características específicas e muito diferentes dos produtos das indústrias tradicionais.
Por um lado existe, uma variedade infinita do que pode ser criado e, se quisermos recriado. E mesmo um produto só, uma canção por exemplo, pode ser editada várias vezes em diferentes alguns e em diferentes versões.
A diferenciação vertical é outra característica dos produtos das indústrias criativas. Os autores querem que os seus produtos atinjam prestígio no mercado, logo acaba por haver diferenciação vertical e os intermediários têm grande influência nestes produtos. Por exemplo, um crítico de arte pode criar pintores de sucesso e também "rotular" outros pintores de menos sucesso o que imediatamente diferencia o produto.
A perenidade é a outra característica essencial. Os produtos criativos não morrem pelo seu consumo. Por exemplo, os direitos de autor sobre músicas e livros podem beneficiar os autores e seus herdeiros por muitos anos.
Por último, os consumidores dos produtos das indústrias criativas são também distintos de outros. Todas as pessoas, à partida, necessitam de consumir agua e pão, mas nem todas as pessoas consomem produtos criativos. Esta grande explosão das indústrias criativas também só é possível há poucas décadas porque muitas pessoas já viram atendidas as suas necessidades básicas, como comer, beber e ter habitação. Só depois disto é que os indivíduos podem se "dar ao luxo" de ir ao cinema, ao teatro, comprar um CD ou comprar um livro!
Não é fácil gerir uma organização que tem por base a criatividade criativo. Se pensarmos bem, nem sempre o que é produzido vai de encontro ao que o consumidor quer (lembremo-nos que fazem arte, pelo arte e não para colmatar lacunas detectadas no mercado como as industrias tradicionais) e, no fundo, as exigências dos consumidores são também elas ilimitadas!
Porém, parece que Portugal tem o mercado criativo em grande evolução. Já em 2006, o Ministério da Cultura revelou que o sector cultural e criativo foi responsável por 2,8% do Produto Interno Bruto (PIB), uma percentagem mais elevada que o contributo de indústrias tradicionais como, por exemplo, o têxtil. A cultura e a criatividade garantiam naquele ano 127 mil empregos em todo o país (2,6% do total nacional).
As indústrias criativas fazem parte, também, das prioridades da União Europeia, que em 2004, no âmbito da Estratégia de Lisboa, as considerou essenciais para atrair investimento e dar aos países vantagens competitivas.
Outros passos importante têm sido tomados em Portugal e que merecem louvor: em 2008 foi criado o Prémio Nacional de Indústrias Criativas, uma parceria entre a Fundação Serralves e a Unicer, que visa apoiar projectos estruturantes que podem representar valor acrescentado para a economia portuguesa. Por outro lado, na Fundação de Serralves existe também uma incubadora de empresas criativas que pretende potenciar o aparecimento de empresas nestas áreas.
Em conclusão, depois desta breve reflexão sobre as indústrias criativas, é muito positivo ouvir uma notícia como esta nos dias de hoje. No meio de tantas notícias com teor negativo, há um sector em amplo crescimento em Portugal e, uma honra maior ainda, é o reconhecimento da criatividade (portuguesa) como grande motor deste desenvolvimento! Quem sabe se, com o tempo será possível eliminar o estereótipo de que "os artistas são todos pobres" e de que "a arte não põe pão na mesa"...
Referências Bibliográficas
Bendassolli, P., Wood Jr., T, Kirschbaum, C. & Pina e Cunha, M. (2009). Indústrias Criativas: Definição, Limites e Possibilidades. RAE-Revista de Administração e Empresas. v. 49, n.º1, jan/mar
Lima, A. (2010). Norte está a fomentar indústrias criativas. Jornal de Noticias.27 de Abril. .Disponível em: http://jn.sapo.pt/PaginaInicial/Nacional/Interior.aspx?content_id=1553941

