Ainda não lhe aconteceu estar no trânsito, à ida ou no regresso do trabalho e de repente sentir uma vontade incontrolável de desligar o rádio por já não conseguir ouvir mais as mesmas notícias?
Tenho a sensação que só ouço falar de crise e recessão económica desde 2003! Eu sei, todos sabemos, não precisam de repetir! Longe vão os tempos em que ouvia as notícias na rádio calmamente e estas ajudavam-se a ultrapassar os engarrafamentos diários.
Todos sabemos que a maior fase de recessão já foi ultrapassada (segundo alguns especialistas) e Portugal já se encontra em fase de recuperação, mas essa ideia parece não entrar facilmente na nossa mente nem no nosso discurso diário.
O tema da crise domina as conversas já há alguns anos. Aliás, já conquistou o estatuto de "cliché" garantido na conversação entre toda a gente. Acho que já nem conversas sobre o tempo garantem a mesma fluência no diálogo. Parece já ser possível discordar sobre o tempo, mas não sobre a crise.
Para mim, como profissional do comportamento humano, a palavra crise tem outro significado, incutido a muito custo desde os tempos de faculdade.
Erik Eriksson (1902-1994) foi o primeiro autor a criar uma teoria psicossocial que explica as várias fases pelas quais passa um ser humano ao longo de toda a sua vida. Ele foi discípulo de Sigmund Freud (1856-1939), que também concebeu uma teoria de estádios, porém esses estádios terminam na infância na perspectiva de Freud. Eriksson afastou-se bastante do seu professor: chamou de "Crises" às oito fases pelas quais todos os seres humanos passam.
"Crise", na perspectiva erikssoniana é um estádio que envolve um determinado conflito que tem de ser resolvido. Durante a nossa vida teremos de resolver 8 grandes crises e cada um nós terá à escolha dois modos de lidar com essas crises: um modo adaptativo e outro modo inadaptativo. À medida que vamos resolvendo essas crises vamos crescendo como pessoas, definindo a nossa identidade e personalidade.
Foi graças ao trabalho de Eriksson que a sociedade de hoje está mais atenta aos problemas que os "menos jovens" enfrentam, desde a "crise de meia idade" até às dificuldades da velhice, que começa a merecer hoje a devida atenção.
Por isso, espero que entendam a minha hesitação quando ouço falar daquela crise do dia-a-dia. Uma crise, para mim, continua a ser um conflito a ser resolvido, uma moeda de duas faces e uma oportunidade de crescimento, seja de um ser humano ou de um país.
Mas então, ao nível da etiqueta organizacional...o que fazer com as conversas da crise?
Resposta: Não queira ser o mensageiro de péssimas notícias todos os dias, sejam qual for a sua função. Pode utilizar o cliché da crise para quebrar o gelo numa conversa, pode abordar uma ou duas vezes o assunto, mas não massacre.
Se tiver de falar de crise, opte por posições mais optimistas. Sim, eu sei que é difícil, como tudo na vida, como diz o povo. Como profissional, aproveite o seu saber da sua área de especialização para fornecer soluções aos outros, ao invés de debitar notícias e queixar-se sobre a crise.
Faça um esforço por saber (e reter) factos positivos. Já reparou que se ouvir uma notícia muito negativa nunca mais a esquece, mas se ouvir algo positivo, parece esquecer-se mais depressa? Agora, tente reverter isso.
As pessoas com quem falar vão, por certo, resistir, e vão referir mais novidades negativas. Porém, para a sua própria carreira e para a imagem da sua empresa, não deixe transparecer demasiado que a crise está a afectá-lo.
Mostre aos outros que é capaz de manter uma atitude mental positiva, e à medida que vai fazendo esse esforço, essa atitude vai acabar por ganhar lugar no seu cérebro. Sim, o optimismo pode ser aprendido!
Uma pessoa que dedicou quase toda a sua vida a ensinar o optimismo, foi o professor e investigador Martin Seligman (1942-), colaborador da Universidade da Pensilvânia, EUA.
No início da sua carreira, Seligman realizou uma série de estudos com animais e desenvolveu a Teoria do Desânimo Aprendido (1975). Num dos estudos clássicos realizados com cães verificou-se que os animais previamente sujeitos a choques eléctricos a que não conseguiam escapar tendiam subsequentemente a não fazer esforço para escapar de outros choques eléctricos que era possível evitar. Só mais tarde foi comprovada a existência deste fenómeno também em humanos, quando se reúnem determinadas condições.
Porém, Seligman acabou por reorientar os seus estudos para o que poderá parece o reverso da medalha - o Optimismo- tornando-se a maior autoridade no tema até ao dia de hoje.
Seligman define optimismo como a forma como as pessoas explicam a si próprias os seus sucessos e fracassos. Os optimistas atribuem um "fracasso" a alguma característica sua que pode ser mudada, para que possam vencer na próxima vez, enquanto que os pessimistas assumem e interiorizam a "culpa" pelo fracasso, atribuindo-a a uma característica que acham que não pode mudar.
Para enquadramos o optimismo no contexto empresarial, vejamos um estudo de Seligman, realizado numa das mais bem sucedidas seguradoras do mundo: a MetLife.
Como sabemos, ser vendedor de seguros, é uma profissão exigente, ainda mais quando falamos em vender seguros de vida (por esse motivo, cerca de 75 % dos vendedores de seguros americanos desistem nos primeiros três anos). Seligman aplicou um teste psicológico que visava avaliar o nível de optimismo a todos os vendedores recém recrutados. Descobriu que os novos vendedores que possuíam elevado nível de optimismo venderam 37 % mais seguros nos primeiros dois anos que os pessimistas. E no primeiro ano os pessimistas desistiram duas vezes mais que os optimistas.
Penso que todos nós sabemos bem o poder do optimismo e da esperança, mas parece que temos um grande caminho a percorrer quando falamos de incorporar esse sentimento dentro de nós.
Se a leitura deste artigo fizer com que pelo menos uma pessoa consiga fazer um esforço por lidar e falar da "crise" mais positivamente em próximas conversas, então já teria valido a pena.
[Para saber sobre o trabalho de Martin Seligman, visite o site oficial em: http://www.authentichappiness.sas.upenn.edu]

