Mas então, poderemos pensar...só agora? Dantes não havia criatividade? Apareceu assim, de repente? Já diz a sabedoria popular que "A necessidade aguça o engenho". Sempre existiram gestores preocupados em inovar nas empresas, preocupados em trazer práticas criativas, mesmo que não as chamassem por esse nome, fossem para fidelizar clientes ou estimular colaboradores ou para enfrentar organizações concorrentes.
Actualmente, essa necessidade torna-se cada vez maior, daí que dediquemos uma série de artigos à criatividade aplicada à gestão. Mas antes de perceber a aplicabilidade deste campo nas organizações, há que explorar um pouco mais a criatividade por si só.
A palavra criatividade, provem do latim creare, que significa criar, sair do nada, estabelecer relações até então não estabelecidas. A Nova Enciclopédia Portuguesa (1992) define-a como a "faculdade ou atributo de quem é criativo. Capacidade de criar coisas novas. Espírito inventivo, talento criador".
Como quase todos os assuntos que se referem à alma humana, muitos filósofos já reflectiram sobre a criatividade. Foi Platão que defendeu que a criatividade era um dom divino e seria uma inspiração enviada por um ser superior a apenas alguns seres humanos. E foi apenas por volta dos anos 50 do século XX que o constructo da criatividade começou a ser estudado cientificamente.
Hoje em dia, o estudo da criatividade é bastante multidisciplinar. Estudos no campo das neurociências, da filosofia, da psicologia, do comportamento organizacional, do marketing e outros ramos do saber têm ajudado a fortalecer o interesse por esse fenómeno exclusivo do ser humano que é a capacidade de criar, inventar e inovar.
Todavia, durante centenas de anos subsistiram diversos mitos sobre a criatividade. Numa primeira fase, como já dissemos, pensava-se que era algo que provinha de um ser superior, depois subsistiu a ideia de que era algo inato, que tem de nascer connosco e, portanto, acreditava-se que simplesmente não podia ser ensinada ou aprendida.
Durante centenas de anos a criatividade foi abordada como apêndice da arte. Ser criativo era quase sinónimo de ser artista. Mas a criatividade é algo que existe em todos nós, é inerente ao ser humano, está guardada no fundo do nosso hemisfério direito (no caso de sermos dextros) e aguarda, num cantinho bem profundo, ser estimulada e abraçada pelo dono desse cérebro.
Nos dias de hoje, no entanto, o hemisfério racional é muito mais enaltecido. Fazer raciocínios complexos é muito mais valorizado do que ser capaz de criar algo novo.
Os investigadores actualmente acreditam fortemente que o potencial criativo tem início na infância. Quanto mais estimuladas são as crianças para desenvolverem esse potencial mais criativos serão e quanto menos estimuladas menos criativos serão na idade adulta. O que não quer dizer que, se não fomos crianças muito estimuladas estaremos condenados para o resto da vida a ser adultos pouco criativos. Podemos continuamente estimular o nosso potencial criativo.
Um outro grande mito era achar que, para se ser criativo tinha de se ser inteligente. Foram os investigadores Wallach e Kogan que, depois de diversos estudos empíricos nos anos 60, provaram que esta era uma ilação errada. Em diversos estudos com crianças, concluíram a existência de crianças criativas com baixo quociente intelectual e encontraram também crianças inteligentes que não eram criativas.
A criatividade tem muito mais afinidade com a motivação de cada um do que propriamente com o quociente de inteligência. Aliás, como psicóloga posso mesmo afirmar que grande parte dos testes que medem (ou tentam medir!) o famoso QI, quase não têm qualquer conteúdo de avaliação da criatividade.
No entanto, a cada minuto, todos nós utilizamos pequenas doses de criatividade para a resolução de problemas no nosso dia-a-dia, porém raramente reconhecemos isso como potencial criativo.
Um outro mito associado à criatividade é o de que, quem consegue ser muito criativo, consome substâncias. Talvez pelo facto da vida artística estar interligada com a boémia, este mito prevalece ainda. Na realidade, não é mentira que a criatividade possa ocorrer em estados alterados de consciência. Muitos escritores, pintores e outros profissionais da arte recorriam a substâncias lícitas ou ilícitas para obter inspiração, desde o álcool, a drogas naturais e drogas sintéticas. Mas hoje sabemos que o recurso a estas práticas, a longo prazo, poderá levar à destruição parcial ou total do potencial criativo.
Muitas vezes, somos nós próprios o grande obstáculo à descoberta e estimulação da nossa criatividade, através do que alguns autores chamaram de "voz crítica". Aquele vozinha que vem do fundo de nós e enfraquece a nossa confiança, afirmando que afinal não seremos capazes, que ninguém nos dá valor ou que a ideia que tivemos no passado foi apenas sorte e não potencial criativo!
Se permitirmos que esta voz nos vença vezes de mais, vamo-nos tornando fechados e desconfiados, até que desacreditamos totalmente nas nossas ideias. Algum tempo depois a insegurança será tal que deixaremos simplesmente de formular e apresentar novas ideias aos outros, o que acontece frequentemente nas organizações.
Apesar das variadíssimas definições de criatividade, podemos simplificar definindo criatividade como a emergência de algo novo, único e original e se virmos por este prisma, isso é exactamente o que as empresas precisam.
Podemos considerar dois tipos de criatividade: a individual e a colectiva. Apesar de muito interligadas, a individual é a expressão criativa de uma só pessoa, enquanto a colectiva é a expressão do potencial criativo de um grupo de pessoas, que surge da sua interacção e sinergia.
Nos artigos sob o tema da Criatividade Aplicada à Gestão, iremos abordar mais frequentemente a criatividade colectiva, porque grande parte das vezes as criações nascem de equipas de trabalho.
O facto de, durante os anos 90, ter surgido a expressão "indústrias criativas" (que serão tema de próximos artigos), impulsionou ainda mais a atenção de todas as organizações para a criatividade. Além disso, a criatividade está altamente correlacionada com a inovação, que apesar de ser um tema mais explanado quando se fala de tecnologia, acabou por (felizmente!) invadir todo o espaço organizacional.
As organizações começaram finalmente a perceber que a formação dos seus quadros, se não de todos os colaboradores, era quase anti-criativa. A escola actual não promove a criatividade. Todos sabemos, infelizmente, que desde os primeiros anos escolares como alunos, aprendemos a repetir conceitos e verdades ditos "universais", mas raramente nos oferecem a oportunidade de participar criativamente. É solução deste problema passa por práticas pedagógicas activas como, por exemplo, a inovadora "PBL", Problem Based Learning (como é o caso dos casos práticos, estudos de caso, investigação, trabalho de projecto, etc.), que sabemos que estimula a curiosidade e a criatividade.
Face a esta constatação, começa a nascer uma forte necessidade das organizações de preencher esta lacuna e estimular a criatividade dos seus colaboradores e, por isso, dedicaremos neste Portal alguns artigos ao aprofundamento deste assunto.

