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Gestão de carreiras em momentos de crise

Escrito por  Ana Serafim
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Algumas mudanças fundamentais estão a acontecer todos os dias com grande impacto na gestão das carreiras de milhões de profissionais em todo o Mundo. Soube por exemplo, que a Sony vai despedir oito mil pessoas, seguindo um plano de reestruturação da empresa que visa atenuar os efeitos da crise mundial. A Toyota e a Tyco anunciaram também paragens de produção significativas, entre muitas outras notícias do género que têm sido publicadas nos principais jornais de economia. Tenho a noção que estas empresas têm os melhores gestores e os melhores profissionais do Mundo, mas como é que se pode sobreviver num ambiente destes?

Despedir pessoas é uma medida dura e acredito que nenhum gestor responsável goste de a tomar, mas normalmente tem um impacto rápido na redução de custos das empresas, permitindo salvar algumas da falência certa. Muitas vezes, os despedimentos em massa evitam as falências em massa - são uma decisão de gestão à qual nenhum gestor responsável deveria fugir. No entanto, ao despedirem pessoas desta forma, não estão os gestores também a desfazerem-se do seu principal meio de produção?

Crise financeira ou capital humano?

O capital humano é mais importante do que o capital financeiro. São as pessoas que detêm os principais meios de produção: ideias, emoções, conhecimento e experiência. Em qualquer empresa moderna, seja uma software house, uma sociedade de advogados, uma agência de publicidade, uma fábrica ou um banco, 70 a 80 por cento do trabalho realizado é intelectual. Hoje, todas as empresas concordam que a inovação é o principal factor de competitividade e que o cérebro humano, o computador mais evoluído do mundo, não é propriedade dos sócios nem dos fundos de investimento.

Kjell Nordström e Jonas Ridderstråle, no seu livro Funky Business: Talent Makes Capital Dance (ver http://www.funkybusinessforever.com/) dão-nos um exemplo desta ideia que me pareceu interessante: mesmo numa indústria pesada, como o sector automóvel, já não são os meios de produção "capital intensivos" como o motor ou a carroçaria que determinam o valor de um carro. Construir automóveis actualmente baseia-se em tecnologia, no controlo da cadeia logística, no design moderno e funcional, no atendimento e serviço ao cliente. Cerca de 70 por cento do valor de um automóvel baseia-se em activos intangíveis.

Dilbert.com

Como vão as empresas gerir esta saída de meios de produção? Ultrapassada a crise financeira - e é certo que a vamos ultrapassar - como irão as empresas reorganizar-se? E como irão os profissionais que deixam as empresas trabalhar neste novo mundo, sem fronteiras, onde se pode trabalhar em qualquer local e mesmo em vários sectores de actividade?

São perguntas que não têm uma resposta fácil, mas penso que estas mudanças nos obrigarão a trabalhar de forma mais independente e com uma atitude mais empreendedora. Isto pode significar mais risco para uns e mais oportunidades para outros.

Desempregados ou empreendedores?

No estudo da Global Entrepreneurship Monitor sobre empreendedorismo (ver o relatório a que nos referimos aqui) verificamos que são os países mais pobres os que têm a maior a percentagem da população activa envolvida em actividades empreendedoras. Países como o Perú, as Filipinas, Colômbia, Jamaica e Indonésia estão no topo dos países com mais empreendedores do Mundo. A principal razão? A falta de oportunidades de emprego satisfatórias. Mas curiosamente, no outro extremo, o dos países mais ricos, também vemos taxas de empreendedorismo elevadas: Noruega, Estados Unidos e Islândia. Neste caso, os empreendedores querem aproveitar oportunidades de mercado.

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Em Portugal, temos de decidir rapidamente sobre qual dos pontos nos podemos encontrar. A taxa de empreendedorismo é relativamente elevada (ver um relatório do INE sobre este assunto aqui) e quer seja pela falta de alternativas, quer seja pela melhoria da situação financeira e da realização pessoal, estar preparado para começar uma nova actividade é imprescindível. Iremos com certeza ver o nascimento de novas empresas como forma de responder ao desemprego e à insatisfação laboral.

Recibos verdes são precariedade ou liberdade?

Não posso estar mais contra a ideia dos falsos prestadores de serviços e acho mesmo que são um dos maiores problemas que temos para resolver. Por falsos prestadores de serviços entendo aqueles profissionais que colaboram com uma determinada organização e que não têm formalmente um contrato de trabalho, mas que na realidade são colaboradores como todos os outros dessa organização. É uma situação injusta quando a comparamos estes profissionais com aqueles que têm um contrato de trabalho, porque normalmente os trabalhadores independentes fazem mais contribuições para a Segurança Social e têm menos protecção contra o desemprego, baixa, etc. É um assunto que tem sido muito debatido e é certo que brevemente ocorrerão alterações à lei para tentar evitar este tipo de situações.

Mas, os profissionais independentes têm a oportunidade para diversificar a sua actividade, reduzindo o risco de desemprego. Ou seja, podem mais facilmente trabalhar para várias organizações (clientes) e negociar horários flexíveis. Podem aprender mais com a diversidade de experiências e dedicarem-se à sua própria formação.

Criar uma base de clientes pode ser extremamente difícil nos tempos que correm - falo por experiência própria - mas uma vez conseguindo-a, tem-se muito mais segurança no seu trabalho do que em qualquer outro emprego. Se prestar serviços a dez empresas diferentes, qual é a probabilidade de as dez prescindirem da sua colaboração de um momento para o outro? Parece-me menor do que a probabilidade de integrar as fileiras da Sony...

O sistema fiscal criou um regime simplificado para os empresários em nome individual e para os profissionais liberais que, dentro de algumas condições, não o obrigam a manter contabilidade organizada (embora seja possível optar por tal) e ainda assim permitem deduzir 80 e 30 por cento respectivamente do seu volume de facturação. É um regime que me parece suficientemente justo e que a partir de um determinado nível de facturação anual é mesmo mais eficaz do que a tributação de rendimentos do trabalho dependente.

Estabilidade ou estagnação?

Um dos maiores mitos da gestão de carreiras dos nossos tempos é o da estabilidade. Talvez por medo, vejo tantas pessoas a abdicarem dos seus sonhos e do seu talento em troca de um emprego perto de casa ou de um emprego que não lhes proporciona qualquer desafio às suas capacidades intelectuais ou à sua criatividade. As pessoas agarram-se ao que lhes parece mais seguro, ao mito do emprego para toda a vida, só para descobrirem que a estabilidade não existe.

A estagnação sim, existe e não há nada mais perigoso do que passar dez anos a repetir-se a si mesmo, dia após dia. Quando, por algum motivo, se vir obrigado a mudar de ambiente ou a ter que desempenhar uma profissão diferente da que estava habituado, percebe que a experiência que acumulou pode afinal não valer tanto como imaginava. Isso vai acontecer, inevitavelmente.


Como se lida com isto? Parece-me muito mais saudável (viável?) um estilo de gestão que desafia os seus colaboradores a saírem das suas "zonas de conforto", a arriscarem e a experimentarem novas aptidões, como fazem algumas multinacionais como a Google, a 3M e a Sonae porque dá aos seus colaboradores a grande vantagem de se manterem sempre "empregáveis" e nunca se aborrecerem.

«A não ser que os conceitos de trabalho e devertimento e recompensa pelo trabalho mudem completamente, as mulheres têm de continuar a constituir mão-de-obra barata, e ainda mais, mão-de-obra gratuíta reclamada por direito por um patrão que detém um contrato por toda a vida feito em seu favor.»

Germaine Greer, escritota feminina


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Úlima modificação em Quarta, 29 Dezembro 2010 16:20
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