Pub

Pub

300_250_pt

Os mais lidos hoje

 

Uma análise mais pormenorizada da margem bruta

Escrito por  Joshua Kennon
Avalie este Item
(2 votos)

Como já demonstrei anteriormente, o lucro e a margem bruta são igualmente importantes porque determinam quanto dinheiro resta de cada euro de vendas para pagar salários, encargos sociais, publicidade, expansão, redução de dívidas e pagamentos de dividendos aos accionistas. Mas muitas vezes, gestores e investidores ficam realmente obcecados com o valor das margens porque pensam que são o objectivo mais importante a atingir. É preciso entender um bocadinho de contabilidade e finanças para perceber que nem sempre é o caso. Este artigo pode tornar-se um bocado complexo no que diz respeito à decomposição dos factores de rentabilidade de uma empresa, pelo que não é minimamente recomendado para principiantes. No entanto, vou tentar demonstrar da forma mais simples possível como os diferentes componentes da rentabilidade dos capitais próprios interagem entre si.

A margem bruta não é o mais importante

A margem bruta não pode ser a sua obsessão permanente porque é apenas uma parte dos dois rácios financeiros mais importantes: rentabilidade dos capitais próprios e rentabilidade do activo. É possível que uma empresa com uma margem bruta de 20% ser mais rentável do que uma empresa com uma margem bruta de 80%. Isto pode parecer loucura mas tem a ver com a decomposição do valor da rentabilidade dos capitais próprios (ROE).

Em 1919, um gestor financeiro da DuPont descobriu como segregar as componentes individuais da rentabilidade dos capitais próprios. Hoje, designamos esta abordagem por análise DuPont. Explicar esta análise é um tema a desenvolver noutro dia mas o resultado é que uma empresa que roda mais rapidamente os seus activos pode gerar mais lucros em termos absolutos em relação ao capital investido do que uma empresa com uma rotação inferior e uma margem maior.

Pense na questão da seguinte forma: se dois miúdos vendem chocolates e um deles, o João, ganha 5 cêntimos por cada unidade vendida e o outro, o Guilherme, ganha 10 cêntimos por unidade, é do senso comum que o João terá de vender duas vezes mais do que o Guilherme para que os lucros sejam idênticos.

Mas se o João atrair muitos mais clientes do que o Guilherme devido aos seus preços incrivelmente baixos, pode obter um lucro superior em termos absolutos, mesmo com uma margem bruta unitária inferior. Isto é, se o João vender 100 chocolates e ganhar €5.00 (100 chocolates x €0.05 por chocolate = €5.00 de lucro total) e o Guilherme vender apenas 25 chocolates (25 chocolates com uma margem unitária de €0.10 = €2.50 de lucro total). O João realizou o dobro do lucro embora a margem bruta do Guilherme seja o dobro da sua!


As margens brutas dos modelos de negócio da Wal-Mart e da Microsoft
Vejamos os exemplos reais da Wal-Mart e da Microsoft que o ajudarão a compreender melhor este conceito.

O modelo de negócio baseado em margens baixas: uma das formas que a Wal-Mart encontrou para obter taxas de rentabilidade dos capitais próprios de 60% ou mais durante décadas deveu-se ao seu enfoque na grande rotação dos activos em conjunto com baixas margens brutas. Sam Walton era obcecado com a rotação dos activos e usava uma grande alavancagem para expandir o seu portefólio imobiliário, mais do que compensando o facto de as suas margens serem muito inferiores às da concorrência. Essa é uma das razões para que a empresa de investimentos da sua família, a Walton Entreprises LLC, valer mais de 90 biliões de dólares actualmente. Da facturação de 408.214 biliões de dólares o ano passado, 103.557 biliões foram margem bruta, ou seja 25.37%.

O modelo de negócio baseado em elevadas margens: a Microsoft, por outro lado, gera margens brutas astronómicas. Dos 62.484 biliões de dólares de facturação anual, 50.089 biliões foram margem bruta. Isto corresponde a uma margem de 80.16%.

Agora, se quer realmente surpreender-se, pense no facto de a Microsoft - que gera margens brutas de 80.16% ou 50.089 biliões de dólares por ano - obtém lucros líquidos do que a Wal-Mart, que produziu 103.557 biliões de dólares de margem bruta com a sua margem unitária de 25.37%.

Qual é a razão? Os gastos de distribuição, gerais e administrativos. A Wal-Mart dispõe de uma rede global de lojas que necessitam de electricidade, água, seguros, parques de estacionamento, prateleiras, e muito mais. A Microsoft precisa de um único campus em Washington para distribuir os seus produtos electronicamente ou através de retalhistas. 

Sumário da análise da margem bruta

É isto que torna os negócios tão divertidos:

  • A Microsoft tem uma margem bruta de 80.16% vs. a Wal-Mart de 25.37%
  • A Wal-Mart tem um lucro bruto de 103.557 biliões de dólares, que é mais do dobro do da Microsoft (50.089 biliões de dólares), porque o seu volume de facturação é muito, muito superior ao da Microsoft.
  • A Microsoft produz um lucro líquido (18.76 biliões de dólares) maior do que o da Wal-Mart (14.335 biliões de dólares) porque não requer grandes gastos de estrutura para gerir o seu negócio.
Margens brutas diferentes para empresas diferentes
Empresas como a Target e a Wal-Mart têm modelos de negócio com margens muito diferentes do que empresas como a Microsoft e a Google. Uma margem maior nem sempre produz mais dinheiro.

Percebe porque não pode ficar obcecado com as margens brutas? Tem de decidir qual o modelo de negócio que a sua empresa precisa e insistir nesse modelo enquanto funcionar bem. Isto quer dizer que ninguém na Wal-Mart deve estar a pensar em aumentar as margens brutas se isso se conseguir à custa de uma rotação de activos menor porque isso colocaria em causa a grande rentabilidade dos capitais próprios que a empresa tem sido capaz de gerar desde a sua fundação nos anos 60. Do mesmo modo, não faz sentido para a Microsoft tentar mais volume de facturação através de preços baixos.

Isso não significa que não possa oferecer adoçantes de margem. Eu conheço uma empresa de vestuário famosa que vende uns adereços pequeníssimos com 90% de margem. Quantos mais adereços os clientes compram, por apenas alguns euros cada, maior é o lucro porque estas jóias adicionais são "lucro puro" no verdadeiro sentido da palavra.

Não seja míope em relação às margens brutas até ter determinado exactamente que modelo de negócio se ajusta melhor à sua empresa. Por vezes, a melhor forma de gerar o máximo retorno do investimento é baixando as margens em troca de maior rotação dos activos. Outras vezes, a melhor forma é aumentando as margens vendendo menos. É aqui que entram o bom juízo de valor a experiência; terá de decidir por si próprio.

Desta maneira, quando estiver a analisar uma empresa, preste atenção às mudanças nas margens brutas. Pode ser sinal de mudança de estratégia. A última coisa que lhe interessa é uma surpresa.

«Indubitavelmente, há progresso. O americano médio agora paga duas vezes em impostos o que anteriormente recebia em salários.»

H. L. Mencken , escritor humorista


Registe-se e receba atualizações no seu e-mail!

Úlima modificação em Quinta, 30 Dezembro 2010 10:54
Joshua Kennon

Joshua Kennon

Joshua Kennon é um investidor privado, escritor e empreendedor. Escreve regularmente no seu blogue pessoal em www.joshuakennon.com e no Begginers Invest, que recomendamos.

Website: www.joshuakennon.com/
Mais nesta categoria: « Fundo de maneio