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Rácios de avaliação de empresas

Escrito por  Nuno Nogueira
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Quando um investidor se interessa pela aquisição ou alienação de uma empresa, interessa-se particularmente pela parte residual do Balanço - a diferença entre o activo e o passivo - a que chamamos de Capital Próprio. Este é o valor da empresa, do ponto de vista contabilístico e representa todo o seu património.

Avaliar empresas, deste ponto de vista, seria fácil. Uma auditoria cuidada ao balanço permitiria afastar as dúvidas sobre a veracidade dos números e apontar inequivocamente o valor da empresa...

Porque é que o valor contabilístico da empresa pode ser diferente do seu real valor? A razão prende-se com os chamados activos intangíveis, que nem sempre estão totalmente expressos no balanço. Embora a contabilidade tenha evoluído muitíssimo enquanto ciência nos últimos anos, ainda não foi capaz de acompanhar o reconhecimento e mensuração de determinados factos com impacto no património das empresas. Assim, não sabemos quanto vale objectivamente, por exemplo, uma marca, uma carteira de clientes ou o capital intelectual da empresa.

Mas sabemos que estes factores tendem, cada vez mais, a explicar o valor das empresas do século XXI. É por isso que um investidor interessado na aquisição de uma empresa considera a sua reputação no mercado, a sua capacidade de inovar e a qualidade da sua equipa de gestão - ainda que estes activos não sejam mencionados no balanço! E é também por isso que frequentemente está disposto a pagar mais pela empresa do que a sua Situação Líquida, pagando o chamado goodwill.

O mercado também avalia a empresa
Além da subjectividade que acabamos de expor, o valor das empresas também está sujeito à avaliação constante do mercado e à força das suas leis da oferta e da procura. Também o mercado vai julgar o valor da empresa de forma diferente do valor expresso na contabilidade.

É pois frequente encontrarmos grandes disparidades entre o valor contabilístico das empresas e o valor pelo qual são compradas e vendidas no mercado. O exemplo mais evidente desta diferença é a flutuação ao segundo das cotações das acções nos mercados de capitais.

Claro que não é pelo facto das cotações flutuarem ao segundo que o valor da empresa se altera exactamente da mesma forma. Isto acontece porque o mercado tende a incorporar expectativas quanto ao futuro da empresa e a reagir a rumores e outros factores subjectivos, distorcendo a formação do preço das acções: ora sobreavalia a empresa ou lhe cota o valor por baixo. O mercado tem muitas flutuações erráticas de curto prazo, que não são sempre explicadas de forma "racional" (ver a este propósito o artigo "A teoria da eficiência perfeita do mercado e a teoria random walk").

Os rácios de avaliação de empresas
Neste contexto, os investidores socorrem-se de indicadores para reduzir a subjectividade na avaliação de empresas. A experiência demonstra que a utilização cuidada dos rácios financeiros permite tomar decisões mais fundamentadas e acertadas.
Então os indicadores mais básicos serão os seguintes:

Valor nominal das acções - corresponde ao valor facial das acções. O valor do capital social de uma empresa será o valor nominal das acções multiplicado pelo número de acções.
O valor nominal das acções é pois um valor arbitrário e tende a ser baixo quando usado na avaliação de empresas.

Exemplo: se uma empresa tem um capital social de 5 milhões de euros e tem 1 milhão de acções em circulação, o valor nominal de cada acção é de €5.

Valor contabilístico - corresponde ao capital próprio da empresa dividido pelo número de acções.
Também é conhecido na gíria financeira por book value. Incorpora todos os activos da empresa deduzidos de passivos. Esta informação é importante e deve ser testada. Só se deve fazer fé no valor contabilístico da empresa se a contabilidade da empresa não tiver sido manipulada.

Exemplo: o Capital Próprio da empresa é de 12 milhões de euros e a empresa tem um milhão de acções em circulação. O valor contabilístico por acção é de €12.

Valor de mercado - corresponde ao valor pelo qual as acções da empresa são transaccionadas no mercado (a cotação).

O valor de mercado é o valor pelo qual pode comprar ou vender acções representativas do capital da empresa.

Exemplo: a cotação da empresa é de €15. Se a empresa tem um milhão de acções em circulação e se pretender comprar a totalidade do capital da empresa, teria de pagar 15 milhões de euros.

Estes três valores são os mais básicos a ter em conta na avaliação das empresas e já nos dão muita informação. Por um lado, porque são facilmente identificáveis, e por outro, porque permitem analisar as diferenças entre eles. Se, a empresa tem um valor de mercado muito acima do valor contabilístico, por exemplo, poderemos estar perante uma empresa sobre avaliada. Deste modo, chegamos a um dos rácios mais importantes na avaliação de empresas:


Price-to-book value: é o valor da cotação dividido pelo valor contabilístico. Tem tendência a ser superior à unidade porque o mercado valoriza determinados activos que não figuram no balanço.


Earnings per share (EPS): também conhecido como resultados por acção, representa o rácio entre Resultados Líquidos e o número de acções. Este indicador é dos mais usados pelos investidores pois permite ter uma aproximação do lucro que cada acção proporciona ao seu detentor.


Exemplo: a empresa gerou lucros de €1.000.000 num determinado exercício. Se o número de acções for de 1 milhão, o EPS é de um euro, o que permite assumir que cada acção proporciona um euro de lucro por ano.

O mercado costuma apreciar subidas no EPS, pelo que avaliar o crescimento deste indicador ao longo dos anos é fundamental.

Price-to-earnings ratio (PER): É o valor da cotação dividido pelo EPS.

Usando o rácio anterior, permite comparar dados de duas empresas diferentes. Repare que no caso anterior não é possível comparar o EPS de duas empresas diferentes, pois o rácio depende do número de acções representativas do capital da empresa, que é, obviamente, arbitrário. Assim, não faz sentido afirmar que a empresa A vale mais do que a empresa B porque tem um EPS superior.

Mas se dividirmos a cotação da empresa (o preço das acções) pelo EPS, então estaremos em condições de comparar duas empresas diferentes. O PER, que também é conhecido por ‘múltiplos' é dado pela expressão:

Exemplo: as acções da empresa estão cotadas a €15 e o seu EPS é de €1.00. O PER será de 15. Este valor é uma aproximação do número de anos que o investidor levará a recuperar o seu investimento nesta empresa; neste caso, a empresa levaria 15 anos a proporcionar lucros equivalentes ao seu preço actual.


O PER pode ser calculado para empresas individualmente ou para o mercado no seu todo sendo, neste caso, um indicador importante da forma como o mercado está a subvalorizar ou sobrevalorizar as empresas.


Price-to-cash flow (PCF): é o rácio entre a cotação e o fluxo líquido de tesouraria (cash flow) de um determinado exercício.

Este indicador diz-nos quantas vezes é a cotação superior ao cash flow que a empresa é capaz de gerar anualmente. Assim, se a cotação for de €15 e a empresa gerou um fluxo líquido de tesouraria de €750.000, sendo o capital representado por um milhão de acções, o PCF será de 20.


Como medida de performance da empresa, o fluxo líquido de tesouraria funciona muito bem contra manipulações contabilísticas pois como representa a diferença entre o dinheiro entrado e saído na empresa, é uma medida muito objectiva e independente das políticas contabilísticas que a empresa adoptar.


Dividend yield: é o valor dos dividendos distribuídos aos accionistas dividido pela cotação. Este rácio representa a taxa de retorno do investimento por via de dividendos.

Dividendos são a quantia de lucros que a empresa decide atribuir aos accionistas. Se uma empresa tem um Resultado Líquido (lucro) de €1.000.000 num determinado exercício, ela pode decidir distribuir €250.000 aos detentores de capital, permanecendo os restantes €750.000 na empresa, para futuros investimentos, por exemplo. Neste caso, diz-se que o dividend pay-out é de 25%, pois a política de dividendos consiste em distribuir 25% dos lucros aos accionistas.

«O senso comum é o conjunto de preconceitos adquiridos quando chegamos aos 18 anos.»

Albert Einstein, inventor


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Úlima modificação em Quinta, 30 Dezembro 2010 10:52