Os rácios de liquidez medem a razoabilidade dos níveis de tesouraria da empresa e ajudam os gestores a antecipar problemas e a aproveitar oportunidades.
O ciclo operacional de tesouraria
Para compreender o que são rácios de liquidez é fundamental compreender como funciona o ciclo de tesouraria da empresa, isto é, como flui o dinheiro dentro da empresa, de onde surge e como ele é gasto. Desde logo, podemos analisar o ciclo operacional de tesouraria de uma empresa da seguinte forma:
Os influxos operacionais de tesouraria devem-se obviamente às vendas e prestações de serviços da empresa, que são convertidos em dinheiro. Grande parte das vendas não é recebida imediatamente, pelo que o seu valor é inicialmente considerado em "contas a receber", que não é mais do que o saldo do valor que os clientes devem à empresa, será mais tarde convertido em dinheiro.
É pois necessário analisar a evolução da facturação da empresa em conjunto com o tempo que demora a receber o dinheiro dos seus clientes. Como qualquer pequeno empresário sabe, atrasos nos recebimentos dos clientes são frequentemente a causa de problemas de tesouraria.
Mas as empresas têm a possibilidade de compensar eventuais atrasos dos recebimentos dos seus clientes, atrasando igualmente os seus pagamentos a fornecedores (facto que leva ao efeito "bola de neve" muito característico nas empresas portuguesas, em que toda a gente deve a toda a gente e todos têm problemas de tesouraria).
Então as duas ferramentas de gestão que mais directamente influenciam os níveis de tesouraria são a política de pagamentos a fornecedores e a eficácia das suas cobranças. Algumas empresas de sectores específicos, como a grande distribuição, por exemplo, beneficiam simultaneamente de largos prazos de pagamento concedidos por fornecedores e do facto de receberem imediatamente dos seus clientes, logo que estes passam na linha de caixa. Estas empresas têm normalmente grandes volumes de tesouraria. Outras empresas, pelo contrário, não têm grande poder negocial com os seus fornecedores para negociar prazos de pagamento alargados e têm dificuldades de cobrança, o que as leva a ter défices de tesouraria frequentes, que podem paralisar o negócio.
Os inventários são a aplicação mais directa da tesouraria da empresa. Sem inventários de matéria-prima e mercadorias, as empresas não vendem, excepção feita às empresas que prestam serviços. Por isso, gerir os níveis de inventário da empresa é uma das tarefas mais críticas que as empresas têm de realizar com eficácia para optimizarem a sua liquidez. Quanto mais tempo demora a converter os seus inventários em vendas, maior vai ser o esforço de tesouraria da empresa, que tem de continuar a funcionar mesmo quando os seus artigos estão parados nas prateleiras.
Se a empresa for eficaz a gerir o seu nível de inventários, ela vai ser capaz de converter os seus stocks parados nas prateleiras em vendas rapidamente, conseguindo mais liquidez para comprar mais mercadorias e acelerar todo o ciclo de tesouraria criando assim uma máquina bem oleada que gera valor cada vez que roda completamente o seu ciclo operacional de tesouraria.
Claro que montar uma máquina com este nível de eficiência e eficácia não é fácil. Baixos níveis de stock também são sinónimo de vendas perdidas, pois se a empresa não dispõe do stock para satisfazer a procura dos seus clientes, não vai poder vender.
Para completar o ciclo operacional de tesouraria, a empresa terá ainda de pagar as despesas com pessoal e as relacionadas com o fornecimento de serviços indispensáveis à sua actividade, tais como rendas, telecomunicações, seguros, transportes, etc.
Os juros, os impostos e os dividendos
O cash flow gerado pela actividade operacional da empresa tem ainda que fazer face aos pagamentos de juros, impostos e eventuais distribuições de lucros aos accionistas (os dividendos).
Relativamente aos juros, o seu montante depende da dívida que a empresa tenha contraído e do valor de juros negociados com as instituições de crédito. Como vimos no artigo fontes de informação financeira, a estrutura de financiamento da empresa pode ser analisada através do balanço, da qual dependerá um montante maior ou menor de juros a pagar.
Os impostos são obrigatoriamente pagos por lei em função dos lucros obtidos. No caso das sociedades, o imposto a pagar é o Imposto sobre as Pessoas Colectivas (IRC) e no caso das pessoas singulares, os chamados Empresários em Nome Individual, o imposto em causa é o Imposto sobre as Pessoas Singulares (IRS).
Relativamente aos dividendos, não existe qualquer obrigação em pagá-los, dependendo a decisão da afectação dos lucros exclusivamente dos sócios e da constituição de uma reserva legal. Estamos perante uma política de dividendos que terá uma grande influência no cash flow da empresa. Se os sócios decidirem distribuir uma grande parte dos lucros, pouco ficará para o futuro da empresa, pelo que normalmente só uma parte dos lucros é distribuida, ficando o restante na empresa, sob a forma de reservas.
As actividades de financiamento
Além do recurso a entidades externas à empresa como fonte de financiamnento, os sócios poderão ser chamados a realizar aumentos de capital. A entrada de dinheiro fresco na empresa é uma das formas mais comuns de financiamento das empresas e um sinal do reforço da confiança que os sócios depositam no futuro da organização.
Em função das suas necessidades e da capacidade negocial que tiver junto das fontes de financiamento, a empresa poderá aumentar as suas disponibilidades financeiras, recorrendo a novos empréstimos, constituindo esta uma das decisões de financiamento mais importantes que a empresa terá de tomar.
Quando os prazos de financiamento terminarem, a empresa terá de devolver o dinheiro pedido emprestado.As actividades de investimento
Além das actividades operacionais, a empresa tem de gerir as suas decisões de investimento. É necessário, para continuar a operar no futuro, que renove e expanda os seus activos.
Portanto, a realização de novos investimentos em activo fixo, o chamado Capital Expenditure (ou Capex) é uma decisão importante a tomar no planeamento a longo prazo da organização pois representa uma das principais saídas de disponibilidades ao mesmo tempo que é crítica para o futuro da organização.
Nalgumas situações, a empresa poderá decidir alienar activos fixos de que não necessite como forma de aumentar as suas reservas de liquidez. Muitas empresas tomam esta decisão quando decidem abandonar actividades que não consideram estratégicas ou quando encontram uma boa oportunidade de lucro no mercado.
Resumindo...
O fluxo de tesouraria das empresas flui como o sangue num corpo humano. Para gerir da maneira mais eficaz o dinheiro da empresa, é necessário analisar as suas diferentes naturezas, quais as suas origens e aplicações, o tempo de permanência na empresa e como se equilibram os diferentes ciclos internos e externos. Resumidamente, temos um esquema deste género:
Rácio de liquidez geral
Como medida de curto prazo da liquidez da empresa, o rácio mais utilizado é o grau de liquidez geral. Este rácio compara o activo de curto prazo (numerador) com o passivo de curto prazo (denominador) da empresa.
Este rácio dá-nos a relação entre os activos em dinheiro (ou facilmente convertíveis em dinheiro) com o montante que será exigível à empresa a curto prazo. A sua fórmula é a seguinte:
Um valor normal para este rácio será superior à unidade. Se o valor for inferior a um, salvo nalgumas situações específicas, a empresa deverá estar em dificuldades. Para termos uma noção clara do que é normal, é necessário comparar o rácio de liquidez da empresa com o das suas concorrentes e analisar a sua evolução histórica.
Rácio de liquidez reduzida
Este rácio, também conhecido como "acid test", mede a liquidez de forma mais restrititiva, ou seja, usa uma fórmula exactamente igual mas exclui os inventários do numerador. A sua utilização pode ser mais adequada nalguns sectores em que a liquidez dos inventários é menor, como na construção civil, por exemplo, onde a conversão dos artigos em stock (casas) em dinheiro poderá ser mais difícil. A sua fórmula é a seguinte:
Um valor superior a um no rácio de liquidez reduzida é um valor interessante pois significa que a empresa terá capacidade para pagar as suas dívidas de curto prazo apenas com o dinheiro de que dispõe e com o valor que os clientes devem à empresa.
Rácio de liquidez imediata
O rácio de liquidez imediata compara o valor de disponibilidades com o valor do passivo de curto prazo. A sua leitura é imediata: quanto é que o dinheiro que a empresa dispõe no momento representa no total das suas dívidas de curto prazo. A fórmula é a seguinte:
Os valores do rácio de liquidez imediata costumam apresentar valores bastante reduzidos, na ordem dos 10% ou menos, o que significa que as empresas não costumam ter montantes de liquidez elevados. Tal deve-se ao facto de as empresas reinvestirem os seus excessos de tesouraria em activos financeiros a prazo ou aproveitarem para reduzir o seu passivo.
