Ainda que nos últimos anos a variedade e complexidade dos rácios financeiros tenha aumentado significativamente, as fontes de informação financeira, a partir das quais os rácios são calculados, mantêm-se inalteradas há anos, talvez mesmo há décadas. São elas: o balanço, a demonstração de resultados e a demonstração de fluxos de caixa.
Não é possível compreender o significado dos rácios financeiros sem compreender estas três fontes de informação básica, embora também seja justo afirmar o oposto, isto é, compreendendo bem essas fontes de informação, estamos em condições de saber muito sobre uma empresa: se é rentável, se está em crescimento ou em declíneo, se tem dívidas ou problemas de liquidez, etc.
O balanço
O balanço é uma fotografia da empresa num dado momento do tempo. O que podemos ver instantaneamente nessa fotografia é o valor dos bens e direitos que a empresa possui (a que chamamos de activo) e quanto deve a outras entidades (a que chamamos de passivo).
A diferença entre o activo e o passivo é o que designamos de capital próprio e representa o valor contabilístico da empresa no momento em que lhe tiramos a fotografia. Normalmente, o activo é maior do que o passivo, o que significa um capital próprio positivo. Mas também acontece por vezes que o que a empresa deve a terceiros é superior aos bens e direitos que possui, sendo assim nesse caso o capital próprio negativo. Nessas situações, diz-se que a empresa está em situação de falência técnica e terá que encontrar soluções rapidamente para inverter a situação.
Temos assim uma equação do balanço bastante simples: Activo = Passivo + Capital Próprio. Vejamos graficamente o aspecto genérico do balanço de uma empresa:
Teríamos assim, do lado esquerdo do balanço, activos como: o inventário de produtos da empresa, o equipamento produtivo e administrativo, os edifícios, o dinheiro guardado em caixa ou em contas bancárias, as dívidas dos clientes à empresa, entre outros. Tudo isto são bens e direitos da empresa.
Para financiar todo este rol de bens e direitos foi necessário capital. Para vermos como se decompõe esse capital, temos de olhar para o lado direito do balanço. Desde logo, como o nome indica, temos à cabeça o capital próprio que é o montante que os sócios da empresa investiram, acrescido dos lucros que a própria empresa foi gerando com a sua actividade, desde o seu início até à data do balanço. Como já referimos, o capital próprio representa o valor contabilístico da empresa e é um indicador a considerar numa situação de aquisição ou fusão da empresa.
Mas, para financiar o activo da empresa, são necessários também capitais alheios, que designamos por passivo. No passivo encontramos os montantes em dívida aos bancos, fornecedores e outras entidades. Podemos dizer que o passivo é o capital que entidades alheias à empresa nela investiram os seus recursos.
Temos então o activo, que é uma máquina produtora de bens e serviços e geradora de lucros, e que é financiada por capitais próprios e alheios.
Podemos ainda analisar o activo segundo a facilidade com que as suas componentes são liquidadas ou convertidas em dinheiro. Dizemos que activo de curto-prazo é aquele que é facilmente liquidado em menos de um ano e activo de médio e longo-prazo (ou imobilizado) aquele cujo tempo de liquidação é superior a um ano.
Numa empresa típica, os activos de curto-prazo são os depósitos bancários, os valores em caixa, os inventários e as dívidas de clientes. Os activos de médio e longo-prazo são as máquinas, os edifícios, os terrenos, as viaturas e todo o tipo de bens e direitos com carácter de permanência, são a chamada estrutura da empresa.
Quanto à origem dos capitais, podemos usar a mesma classificação: consideramos os capitais próprios como de longo prazo e dividimos o passivo em curto ou médio e longo prazo, conforme o seu vencimento ocorra até ou após um ano. O que encontramos normalmente no passivo de curto prazo são dívidas a fornecedores, empréstimos bancários para fazer face a necessidades de tesouraria, dívidas ao Estado e outras dívidas que fazem parte do dia-a-dia da empresa. No passivo de médio e longo prazo, encontramos frequentemente as dívidas a instituições bancárias referentes a aquisições de bens duradouros.
Seguindo esta classificação, podemos decompor o balanço em cinco peças fundamentais. A informação sobre o valor absoluto de cada uma destas peças e a ordem de grandeza entre elas diz-nos muito sobre a situação patrimonial da empresa. Para compreender a empresa é fundamental compreender o seu balanço.
Vejamos como exemplos os balanços de duas empresas:
Qual das duas parece ter uma estrutura financeira mais equilibrada? Analisando o balanço e a composição dos seus activos e passivos, verificamos facilmente que a empresa A tem uma estrutra de capitais mais equilibrada. Os capitais permanentes (capitais próprios e passivo de longo prazo) da empresa A têm uma grandeza semelhante ao seu activo de longo prazo, o mesmo acontece naturalmente com activos e passivos de curto prazo.
A empresa B, pelo contrário, parece estar a financiar activos de longo prazo com empréstimos contraídos a curto prazo, o que poderá não ser a solução de financiamento mais adequada. É como fazer um crédito à habitação a 15 dias.
Como regra, os activos de curto prazo são financiados pelos passivos de curto prazo e existe uma relação directa entre estes dois valores. Os valores das dívidas de clientes e o valor das mercadorias em stock comparam-se com os saldos de fornecedores, as disponibilidades monetárias em caixa e bancos são directamente relacionadas com os empréstimos bancários obtidos a curto prazo, enfim, todos os bens e direitos da empresa necessários ao desempenho da sua actividade no dia-a-dia devem ser financiados por passivos de curto-prazo e é importante comparar sistematicamente estes valores para analisar o equilíbrio do balanço.
Seguindo o mesmo princípio, a empresa deverá estruturar o seu balanço tendo em consideração que os activos de médio e longo prazo deverão ser financiados por passivos de médio e longo prazo. Os equipamentos produtivos, os imóveis, os investimentos em patentes e licenças, o equipamento administrativo, o equipamento de transporte e tudo o que pela sua natureza tenha um carácter de estrtutura deve ser financiado a longo prazo.
O Capital Próprio
Esta área do balanço é a que normalmente é analisada exaustivamente em situações de compra e venda de empresas. O capital próprio é o valor contabilístico da empresa e nele encontramos três elementos:
1-O capital que os sócios investiram na empresa,2-Os lucros gerados no ano corrente,
3-As reservas provenientes de lucros acumulados ao longo do tempo.
Porque é que a determinação do valor do capital próprio é tão discutível? Porque os valores do balanço estão normalmente registados na contabilidade a custo histórico, que é o custo pelo qual os bens foram adquiridos. Ora, quem pensa em comprar ou vender uma empresa não se interessa tanto pelo valor histórico dos bens, mas antes quer saber o valor actual de mercado dos mesmos.
Existe pois um valor de mercado "extra contabilístico" que deve ser adicionado ou subtraído ao capital próprio para determinação do valor da emrpesa. Esse valor poderá ser mais ou menos difícil de avaliar consoante a natureza dos activos em questão. Assim, se é relativamente consensual que os imóveis da empresa estão muitas vezes sub-avaliados no balanço e por isso carecem de reavaliação, já não é tão fácil avaliar alguns bens intangíveis como a reputação da empresa, as suas marcas, a relação que mantém com os seus clientes, as tecnologias e processos de produção que desenvolveu, etc. É na análise do capital próprio que econtramos grande subjectividade e onde a discussão normalmente aquece mais.
A demonstração de resultados
Como medimos o lucro da empresa num determinado período de tempo? O que sobra depois de retirarmos às vendas da empresa os custos necessários para produzir e distribuir os seus produtos, os custos financeiros e os impostos? Essa informação é obtida através da demonstração de resultados.
Repare que a demonstração de resultados se refere a um determinado período de tempo, normalmente coincidente com o ano civil, para medir o lucro da empresa, ao contrário do balanço que acumula todos os registos desde a criação da empresa até ao momento em que lhe tiramos a fotografia.
Vejamos a seguir como se representa a demonstração de resultados de uma empresa:
Os proveitos são uma das principais motivações da empresa, algumas vezes a única, são a sua facturação de vendas e serviços. Os proveitos são o valor que a empresa factura aos seus clientes no exercício normal da sua actividade. Quando se diz que uma empresa está a crescer, normalmente isso significa que os seus proveitos têm aumentado ao longo dos anos, o que se pode ficar a dever ao aumento dos seus preços de venda, à quantidade vendida ou a uma combinação destes dois factores.
É normal ocorrer um crescimento continuado dos proveitos ao longo dos anos devido ao efeito da inflação, embora esse crescimento possa variar muito de sector para sector. A análise dos proveitos é relativamente simples e representa um sinal rápido da dinâmica e da evolução da empresa. Grandes saltos na facturação podem significar uma expansão agressiva enquanto grandes quebras de facturação poderão ser um sinal que a empresa estará a encerrar unidades de produção ou a sair de alguns mercados.
Claro que para a empresa produzir e vender os seus produtos teve de suportar custos com as matérias-primas e mercadorias, custos com pessoal, custos de vendas, distribuição e divulgação da sua actividade. A esses custos chamamos de operacionais e representam normalmente a maior fatia dos custos da empresa por serem indispensáveis ao desempenho da sua actividade.
Além dos custos operacionais, a empresa terá de suportar os custos relacionados com a sua dívida. Como vimos anteriormente, a empresa financia a sua actividade recorrendo a capitais próprios e a capitais alheios. Ora, os capitais alheios são remunerados sob a forma de juros e na demonstração de resultados são denominados de custos financeiros; quanto maior for o recurso a capitais alheios, mais custos financeiros terá de suportar a empresa. Para além dos juros, existem outros custos financeiros; na maior parte das vezes são os custos relacionados com os serviços bancários e os descontos de pronto pagamento oferecidos a clientes.
Se a estes custos subtraírmos os impostos sobre o exercício (o IRC ou IRS, consoante o caso), chegamos finalmente ao lucro do exercício. Este lucro é transferido para o balanço da empresa no final de cada exercício, para a rubrica de capital próprio. Com o início do exercício seguinte, uma nova demonstração de resultados começa a partir do zero.
Como podemos ver na figura acima, o balanço de cada exercício é carregado com os lucros desse exercício. Se, por exemplo, no exercício de 2010, a empresa gerou lucros de €10.000, então no dia 31 de Dezembro de 2010 a empresa iria transferir esse valor para a rubrica capital próprio, aumentando assim o valor contabilístico da empresa. Se, pelo contrário, registar um prejuízo de €5.000, o valor do capital próprio reduzir-se-á nesse montante.
Com o fim de cada exercício, assumindo que a empresa gerou lucros e os transferiu para o capital próprio, os sócios da empresa terão de decidir o destino desses lucros sabendo que, por lei, são obrigados a constituir uma reserva legal de uma parte desses lucros, deixando a parte remanescente ao seu próprio critério: ou se distribuem aos sócios ou se deixam ficar na empresa para reinvestimento. Se os sócios decidirem distribuir lucros, esse valor será retirado do capital próprio e pago aos sócios.
A demonstração de fluxos de caixa
Esta fonte de informação é talvez a que mais dúvidas suscita entre aqueles que estão menos familiarizados com a área financeira. Resumidamente, a demonstração de fluxos de caixa indica-nos o valor monetário que entrou nos bancos e caixas da empresa num determinado período, normalmente o ano, subtraído do valor monetário que saiu durante o mesmo período.
A demonstração de fluxos de caixa é muitas vezes confundida com a demonstração de resultados e para esclarecer as diferenças entre estas duas peças contabilísticas é fundamental compreender a diferença entre proveitos e recebimentos e custos e pagamentos.
Os proveitos ocorrem sempre que a empresa factura aos seus clientes, como vimos, mas nem sempre o momento em que a empresa factura coincide com o momento em que a empresa recebe o dinheiro. Por vezes os clientes atrasam-se a pagar, originando assim uma situação em que se gerou um proveito (registado na demonstração de resultados) mas não se registou uma efectiva entrada de dinheiro na empresa. Por esta razão, por vezes as empresas têm lucros mas não têm disponibilidades financeiras.
Em relação à diferença entre custos e pagamentos, a situação é idêntica. Por vezes, a saída de dinheiro não coincide com um custo. Por exemplo, quando a empresa paga pelas compras de mercadorias não incorre, nesse momento, num custo que só ocorrerá quando a empresa vender essas mercadorias. Até esse momento, a compra de mercadorias é inventário da empresa mas não é um custo.
Outra diferença comum entre custos e pagamentos está relacionada com as amortizações, isto é, o desgaste dos activos da empresa. Embora a empresa possa ter investido o valor total de uma máquina num dado momento, por exemplo, o seu custo só irá ocorrer à medida que essa máquina for utilizada ao longo da sua vida útil. Temos portanto uma saída de dinheiro no momento em que se comprou a máquina, mas um custo que será diluído por vários anos.
A demonstração de fluxos de caixa regista as entradas e saídas de dinheiro, independentemente do lucro ou prejuízo gerado num determinado exercício. A sua análise é fundamental para compreender os rácios de liquidez, mas é sobretudo importante porque a sua simplicidade (a única regra consiste em registar entradas e saídas de dinheiro da empresa) permite-nos desvendar eventuais manipulações contabilísticas, mais comuns na demonstração de resultados.
O aspecto genérico da demonstração de fluxos de caixa é o seguinte:

