Procurar o valor de uma empresa através da análise do balanço

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O balanço é a peça contabilística que reúne mais informação financeira sobre uma empresa. Nele lista-se e quantifica-se todo o património da empresa: de um lado, tudo o que a empresa possui, e do outro, como financiou a sua aquisição. A diferença entre o que a empresa tem e o que a empresa deve é o chamado valor contabilístico.

Para o investidor, este é o 'book value', o valor da empresa no papel e é um indicador frequentemente utilizado na tomada de decisões de compra ou venda de acções. O processo de análise é algo do género:

  1. Tendo em conta que a maior parte das empresas regista o valor dos seus activos ao custo histórico e que alguns activos não são sequer expressos no balanço, é de esperar que o activo da empresa esteja subavaliado;
  2. Se compararmos a capitalização bolsista com o 'book value', chegaremos ao rácio 'Price-to-book value" (PBV), que divide o valor de mercado pelo valor contabilístico da empresa;
  3. Se o PBV é baixo, principalmente se é inferior a um, estamos perante uma boa oportunidade de compra; se é alto, é de evitar esta empresa.

Enquanto instrumento de análise, este raciocínio faz sentido. No entanto, um investidor cuidadoso deve procurar perceber qual o verdadeiro valor dos activos – esteja este expresso ou não no seu balanço.

O valor de algumas rubricas que figuram no activo pode variar significativamente de empresa para empresa distorcendo a análise do PBV.

As marcas, o goodwill e outros activos intangíveis

A contabilidade tem evoluído no sentido de valorizar determinados activos intangíveis, como as marcas, o goodwill, as patentes, o know-how e outros recursos com grande capacidade para gerar riqueza de uma forma objectiva e que assegure a comparabilidade entre as empresas.

Mas, de acordo com as actuais regras, se uma empresa gerar internamente uma marca, porque faz um excelente trabalho na identificação das necessidades dos seus consumidores e assim concebe e introduz novos produtos que os seus clientes apreciam, terá de registar o valor da sua marca no balanço por zero euros.

O mesmo já não acontece a uma empresa que adquire uma marca externamente. Nesse caso, o balanço expressará o valor pago pela marca. A marca figurará no balanço como um activo intangível que será amortizado em função da sua "vida útil".

Portanto, a primeira empresa possui um activo cujo verdadeiro valor não se conhece ou não se consegue medir fiavelmente, que não figura no balanço. Mas esta empresa tem a capacidade de criar valor através da sua marca. Os seus clientes conhecem-na e confiam nela. Trata-se de um activo oculto e o seu valor poderá ser bastante elevado.

A segunda empresa adquiriu uma marca e com isso, reportará todos os anos durante a sua "vida útil" (que não se conhece com rigor qual será), um custo associado à sua amortização. A performance do rácio PBV será inferior por causa desta amortização.

Neste caso, o PBV das duas empresas poderá diferir substancialmente se não forem tomados em consideração os activos intangíveis. O investidor terá de saber analisar o valor dos activos intangíveis que figuram e/ou estão ocultos no balanço para poder estimar o verdadeiro valor da empresa e se se depara perante uma boa oportunidade de investimento.

A Google é um caso interessante que ilustra como uma empresa pode controlar activos intangíveis expressos e ocultos na folha de balanço.

A marca Google por exemplo é um dos activos com mais valor para a empresa, que no entanto não figura no balanço. A enorme potência tecnológica que a Google conseguiu criar e cujas aplicações têm a capacidade para gerar valor durante muitos anos foi gerada internamente e também não é registada no balanço da empresa.

Recentemente, a Google tem apostado na diversificação dos seus negócios como forma de reduzir o risco de dependência das receitas publicitárias. Graças ao sucesso do seu motor de pesquisa e às receitas com publicidade que a partir dele tem obtido, a empresa gerou quantias extraordinárias de liquidez e assim tem adquirido outras empresas tecnológicas em diversos sectores. A aquisição das empresas figura no balanço da Google como goodwill (a diferença entre o valor pago pela aquisição de uma empresa e o seu valor contabilístico).

Os imóveis

Muitas empresas continuam a registar o valor dos seus imóveis ao custo histórico. Um terreno adquirido há 20 anos atrás que mantenha o seu valor contabilístico inalterado pode representar um valor escondido. Na análise do PBV, o investidor terá de saber analisar se a empresa adopta tal prática contabilística e procurar avaliar o verdadeiro valor destes activos.

O mesmo já não acontece se a empresa regista o valor dos imóveis pelo justo valor. Neste caso, o balanço mostrará um valor mais consistente com o valor do mercado.

Os inventários

Os inventários são os bens que a empresa vende. Podem ser mercadorias, no caso de empresas comerciais, ou produtos, se a empresa é industrial. Os inventários são um dos activos mais líquidos, porque facilmente se convertem em dinheiro, portanto o seu valor costuma figurar correctamente no balanço.

No entanto, a análise dos inventários deve incluir uma observação da sua evolução temporal. Inventários em alta com vendas em queda são um sinal preocupante. Ou a empresa está a perder competitividade, os seus clientes estão a comprar menos ou preferem os produtos de um concorrente, ou a empresa não é capaz de gerir correctamente as suas operações. Seja como for, o investidor deve procurar saber qual a rotação média dos inventários em função das vendas. Empresas bem geridas mantêm um nível de inventários em relação às vendas estável ou em queda ao longo do tempo.

Os meios financeiros líquidos

De todas as classes de activos, a liquidez (o dinheiro em caixa e os depósitos bancários) é o mais fácil de avaliar, pela sua objectividade. Dinheiro é dinheiro e uma empresa que possui grandes quantias de dinheiro disponível está melhor preparada para enfrentar adversidades, caso ocorram, ou para aproveitar boas oportunidades de investimento.

O passivo

O passivo, principalmente o passivo bancário ou outro que vença juros, é um elemento perigoso que merece ser analisado cuidadosamente e sempre questionado. Está a empresa a usar o passivo bancário para financiar activos produtivos ou para suportar despesas operacionais (pagar salários, rendas e serviços)? Como tem evoluído o passivo ao longo do tempo? Quando se vence? Qual é o seu custo? E qual a sua dependência das taxas de juro de mercado?

O passivo reduz o valor da empresa. Se for bem gerido pode financiar o seu crescimento e gerar resultados positivos. Se aumentar sistematicamente ao longo do tempo num efeito 'bola de neve' pode paralisar a empresa.

Modificado em domingo, 10 abril 2011 17:44
António Jesus

António Jesus é ex-empresário e gestor com mais de 20 anos de experiência. Atualmente dedica a maior parte do seu tempo a partilhar o seu conhecimento com as gerações mais jovens através de ações de formação e da escrita de artigos.

Website: www.portal-gestao.com

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