Pub

Pub

300_250_pt

Os mais lidos hoje

 

A análise fundamental

Escrito por  Nuno Nogueira
Avalie este Item
(1 Voto)

A análise fundamental é a metodologia usada pelos investidores para avaliar empresas a partir da sua informação económica e financeira. Sabendo estimar o valor de uma empresa a partir dos seus números, é possível comparar esse valor com o valor que o mercado lhe atribui.

Assim, se o mercado, transacionar  acções da Coca-Cola (KO) a € 50 cada e se, através da nossa análise fundamental, avaliamos a empresa a €75 por acção, então temos uma oportunidade de negócio interessante! A mais-valia potencial será de €25 por cada acção...

Os seguidores da análise fundamental acreditam que é possível (e frequente) encontrar empresas sub ou sobre avaliadas pelo mercado, pelo que se dedicam ao estudo profundo das empresas, analisando a sua performance económica e financeira, os factores macroeconómicos que podem influenciar a sua rentabilidade, os drivers do mercado em que trabalham, as suas forças e fraquezas, a estratégia da empresa e  a qualidade da sua gestão. Procuram o verdadeiro valor da empresa, independentemente das oscilações temporárias do mercado.

O mercado avalia as empresas de acordo com o seu estado de espírito. É possível, se o mercado estiver eufórico, que uma empresa se valorize mais de 80% num só mês, como aconteceu com a Sonae Indústria entre Abril e Maio de 2009!

O que explica esta valorização espectacular? O que aconteceu a esta empresa? Será que os seus produtos, como que por magia, se transformaram subitamente em metais preciosos? Descobriram petróleo nos terrenos da empresa, ou, simplesmente, jogou e ganhou o Euromilhões? Não - foi o sentimento do mercado de que estaria subvalorizada e a reacção dos investidores às notícias positivas que impulsionaram a procura pelas acções desta empresa, levando-a a valorizar-se para quase o dobro num mês.

Levados pela perspectiva do lucro fácil e rápido (ganhar 80% num mês é tentador), os especuladores compram mais acções desta empresa pressionando, ainda mais, o preço em alta.

Mas, se o mercado avalia as empresas de forma errática, isso significa que vão surgir inúmeras oportunidades de compra ou de venda de cada vez que o valor de mercado se desvia significativamente do seu valor real (intrínseco). Os seguidores da análise fundamental  seguem pois uma premissa básica: que o mercado vai acabar por reflectir o valor intrínseco das empresas no longo prazo.

Como se avaliam as empresas através da análise fundamental?

Para se avaliar correctamente o valor de uma empresa, a primeira fonte de informação para a qual devemos dirigir a nossa atenção é o  balanço.

É no balanço da empresa que se encontra a informação que descreve o estado financeiro num determinado momento - no momento em que se tirou uma fotografia à empresa. Aí encontram-se diferentes informações que os analistas fundamentais consideram importantes para determinar se determinada acção é barata ou cara. Essas informações consistem em:

  • activos (bens e direitos),
  • passivos (dívidas e obrigações),
  • capital próprio, que é a diferença entre o activo e o passivo e representa o valor contabilístico da empresa

O balanço dá-nos a posição financeira da empresa e ajuda-nos a responder às seguintes questões:

  • qual é o valor dos equipamentos da empresa, as suas fábricas, máquinas, edifícios, mercadorias, etc;
  • de quanto dinheiro dispõe a empresa à data do balanço;
  • quanto valem as mercadorias;
  • quanto devem à empresa e quanto deve a empresa a terceiros;
  • está muito ou pouco endividada?
  • como se tem financiado a empresa?
  • a empresa tem sido capaz de manter e/ou aumentar o valor do seu património?
  • quanto vale o património da empresa?

Juntamente com o balanço, os analistas apoiam-se noutra fonte de informação financeira determinante: a demonstração de resultados. Basicamente, a demonstração de resultados é um resumo dos proveitos e dos custos durante um determinado período, normalmente um trimestre ou um ano.

A análise da demonstração de resultados permite avaliar:

  • se a empresa é capaz de gerar lucro e em que montante;
  • quais as fontes e o valor dos proveitos da empresa;
  • qual o valor e a natureza dos seus custos.

A análise da evolução histórica da demonstração de resultados permite-nos aferir se o desempenho da empresa tem vindo a melhorar ou piorar com o tempo; se a empresa tem crescido, se tem sido capaz de controlar os seus custos e aumentar os lucros.

A última fonte de informação financeira da empresa é a demonstração de fluxos de caixa. Esta peça diz-nos quanto dinheiro entrou e saiu da empresa durante um determinado período de tempo, normalmente o mesmo período da demonstração de resultados.

A demonstração de fluxos de caixa pode ser obtida através do balanço e da demonstração de resultados ou através do registo de todos os recebimentos e pagamentos ocorridos durante o período em questão. É uma espécie de saldo que soma todo o dinheiro que a empresa dispõe no início do período, seja em caixa ou em bancos, e compara-o com o valor que dispõe no fim do período.

Pela análise da demonstração de fluxos de caixa podemos testar se a empresa é ou não capaz de gerar cash-flow. É uma análise dura e pragmática dos factos e que deve ser feita sempre que se pondera uma decisão de investimento em acções. Muitas empresas são capazes de gerar lucro proveniente da sua actividade principal mas não são capazes de gerar cash-flow, seja porque têm dificuldades em receber o dinheiro dos seus clientes ou porque estão demasiado endividadas (e têm de pagar pelo serviço da dívida) ou ainda porque estão a financiar o arranque de novos projectos.

Também acontece com alguma frequência o inverso. Isto é, a empresa foi capaz de gerar cash-flow mas não apresentou lucros durante um determinado exercício. Isto pode ser o resultado de atrasos no pagamento a fornecedores ou ao aumento da dívida bancária ou porque decidiu alienar alguns activos, entre muitas outras razões possíveis.

O trabalho do investidor passa por compreender as finanças da empresa. Por saber se a empresa é ou não capaz de garar cash-flow e porquê, tendo presente que só a capacidade de uma empresa gerar dinheiro de forma sustentada no longo prazo justifica o investimento. Investir em acções desta forma é mais difícil do que analisar gráficos de curto prazo, mas garante uma rentabilidade do investimento acima da média.

A comparação da performance da empresa com a do mercado

Para complementar a análise, os analistas observam o balanço, a demonstração de resultados e a declaração de fluxos de caixa de uma empresa e comparam os seus dados com os do sector em que a empresa se insere (chama-se a este exercício de benchmarking). Será que a empresa tem melhor ou pior desempenho do que a média do seu sector? Quem é o líder em termos de rentabilidade e crescimento? Qual é a empresa mais endividada do sector e porquê?

Estas questões, entre muitas outras, ajudam os analistas a compreenderem e anteciparem posições competitivas nos mercados, que empresas vão ser compradas ou vendidas, que empresas vão crescer acima da média e que empresas vão desaparecer.

Os rácios financeiros

Sendo uma linguagem universal, a linguagem financeira foi desenvolvendo alguns termos que permitem sintetizar e comparar grandes conjuntos de informação. Embora as regras de contabilidade ainda sejam diferentes entre os países, é certo que caminhamos para uma normalização cada vez maior, que nos irá permitir comparar a performance de empresas independentemente da sua geografia.

Para o propósito deste guia de investimento não vamos aprofundar em detalhe todos os termos da análise financeira, que será tema de um capítulo próprio. Mas deixamos-lhe aqui a explicação dos principais rácios financeiros usados pelos analistas e investidores:

  • Earnings per share (EPS): É o lucro anual da empresa dividido pelo número de acções que representam o seu capital. Se a empresa obteve um lucro anual de 2 milhões de euros e o seu capital está representado por 1 milhão de acções, então diz-se que cada acção proporcionou 2 euros de lucro.
  • Price-to-earnings ratio (PER). Compara o valor da cotação (price) num dado momento com o lucro anual da empresa por acção (o rácio anterior). Se a cotação da acção num determinado momento for de €6 e o EPS de €2, então a empresa está a ser transaccionada a 3 vezes o seu lucro.
  • Dividend yield: É o valor do dividendo da acção comparado com a sua cotação.
  • Return on equity (ROE): É o retorno dos capitais próprios. Compara o lucro anual da empresa com o valor dos seus capitais próprios, permitindo assim aferir de forma rápida a rentabilidade da empresa.
  • Price-to-book value (PBV): Compara o valor de mercado da empresa (também chamado de capitalização bolsista) com o seu valor contabilístico. Pemite-nos avaliar até que ponto o mercado está a sub ou sobre avaliar a empresa.
  • Price-to-cash flow (PCF): Compara a cotação da empresa com o cash flow gerado durante o ano.

Todos estes termos têm, como já foi referido, a vantagem de sintetizar a informação financeira. Mas a análise simples dos rácios pouco nos permite concluuir àcerca do valor de uma empresa. Uma análise mais profunda, que nos permita compreender uma empresa em toda a sua complexidade envolve uma série de considerações adicionais:

  • Quais são os critérios contabilísticos adoptados? Embora a contabilidade procure exterminar toda a criatividade do Universo, sabemos por experiência (e evidência dos escândalos financeiros) que é possível apresentar uma performance financeira muito distante da realidade que induza analistas e investidores em erro;
  • As empresas cotadas em bolsa são seres orgânicos muito complexos: têm várias linhas de negócio, por vezes não-correlacionadas, actuam cada vez mais em mercados externos, dinâmicos e com factores de risco diversos. Analisar empresas é difícil, mesmo para as pessoas que nela trabalham por vezes;
  • Os rácios financeiros são o desempenho passado da empresa porque a contabilidade apenas regista os factos que já ocorreram. Para se tomar uma decisão de investimento consciente e bem informada é necessário ter-se uma perspectiva da evolução futura da empresa. Ora, se já é difícil analisar o passado, o futuro muito mais difícil será...

Além de toda a informação financeira, alguns investidores estão também a fazer análise qualitativa, onde se tratam factores que podem não ser analisados através de rácios, mas que são igualmente importantes como: a experiência da gestão, os ciclos económicos, a investigação e o desenvolvimento, a inovação, o capital intelectual, a marca e toda uma série de factores a que chamamos de "activos intantgíveis" e que são extremamente difíceis de medir. Acreditamos que usar a análise quantitativa em conjunto com a qualitativa, nos oferece uma vantagem que nos vai ajudar a ver alguns factores que outros não vêem quando analisam uma acção.

Obviamente, a análise fundamental é uma forma de os investidores determinarem se uma acção é uma boa compra ou uma grande venda, olhando para diferentes factores que podem afectar a empresa, mas convém não desprezar o valor da experiência e da intuição, afinal as formas mais supremas de inteligência humana.

«Aqueles que lucram são os que estão no topo. Guardam o donut com eles e dão o buraco às pessoas.»

Alexander Lebed, político russo


Registe-se e receba atualizações no seu e-mail!

Úlima modificação em Quinta, 30 Dezembro 2010 10:24
Plus500