Tendo começado com as longínquas empresas holandesas do séc. XVI, o mercado bolsista moderno existe como um meio de financiar negócios usando o dinheiro de investidores. E a história demonstra que vale a pena estar atento às acções, uma vez que, ao longo dos anos, conseguiram retornos muito melhores do que as obrigações e outros investimentos. Como demonstramos num artigo anterior, (ver Uma estratégia de investimento simples), o Standard & Poors 500 cresceu 5510% desde o primeiro dia do ano de 1950 até ao dia 6 de Janeiro de 2009. O que representa um crescimento médio anual de 7%, mesmo tendo em conta que só no ano passado perdeu 32%.
Ao longo de muitos anos, investidores e académicos estudaram o comportamento das acções e embora não tenha sido ainda possível conceber uma teoria definitiva, é possível enquadrá-lo numa de duas teorias. A primeira defende que o preço das acções - a cotação - depende do valor económico que a empresa é capaz de criar, isto é, do seu valor intrínseco. Para avaliarmos a cotação das acções, segundo esta teoria, socorremo-nos da análise fundamental, que explicaremos mais à frente. A segunda, pelo contrário, defende que a cotação das acções depende essencialmente dos movimentos de curto-prazo, que são aleatórios e imprevisíveis, pelo que para encontrarmos o valor das cotações vamos usar gráficos e outras ferramentas estatísticas.
Uma abordagem teórica que explicasse definitivamente o valor das cotações seria o equivalente a encontrar o paraíso na Terra. Como tal não é possível, o investidor bem informado pode apoiar-se nas duas análises - a análise fundamental e a análise técnica - da forma que melhor o oriente nas suas decisões.
O objectivo do investidor não é acertar em 100% nos seus cálculos, pois isso é impossível, mas antes tomar decisões bem informadas e conscientes.
Assim, a análise fundamental vai basear-se num estudo aprofundado e abrangente sobre as forças que explicam o preço das acções num dado momento.
Como se consegue perceber facilmente, a análise fundamental pode ser composta por muitos aspectos diferentes: a análise da economia como um todo, a análise de uma indústria ou a análise de uma empresa individual. A análise fundamental vai recorrer-se de uma combinação de dados para estabelecer o verdadeiro valor das acções, para determinar se estão sub ou sobrevalorizadas e para prever o seu futuro valor.
A maior parte do trabalho da análise fundamental envolve lidar com as demonstrações financeiras das empresas em causa. Também conhecidas como análises quantitativas, isto significa analisar os seus proveitos, despesas, activos, passivos e todos os outros aspectos financeiros de uma empresa. Os analistas fundamentais estudam estas informações para conseguirem uma noção do futuro desempenho de uma empresa. A análise fundamental procura responder a perguntas como:
- As vendas da empresa estão a crescer?
- Está a conseguir obter lucro? E a gerar cash-flow?
- Como está a financiar as suas operações?
- Será que está numa posição suficientemente forte para bater os concorrentes no futuro?
- Será que vai ser capaz de pagar as dívidas?
- Será que a gestão está a falsificar os números?
Muito mais do que o mero observar de números, quando se trata de analisar uma empresa, a determinação de todos os aspectos intangíveis e difíceis de medir tem enorme importância. Aliás, nos últimos anos, estes intangíveis têm ganho terreno, quando se trata de avaliar uma empresa. Falamos do nível de satisfação dos clientes e empregados, da qualidade do management, da capacidade que a empresa tem de inovar, de se internacionalizar, etc. São tantas as perguntas e a complexidade na análise de uma empresa, que é tão importante analisar como saber colocar as questões certas. É aqui que entra a análise qualitativa, que complementa a análise dura das demonstrações financeiras, e é por ser a mais subjectiva que é também a que distingue os bons analistas financeiros.
Claro que muitos analistas optam por analisar os factores qualitativos em conjunto com os factores quantitativos rígidos. Vejamos uma empresa como a Ikea, por exemplo. Ao analisar esta empresa, é fácil avaliar com precisão uma bateria de rácios e indicadores financeiros, como o montante pago em dividendos anuais, os ganhos por acção, o rácio preço/lucro e muitos outros factores quantitativos. Mas é óbvio que estamos a falar de uma empresa com um grande capital de marca e uma análise à Ikea nunca estaria completa sem se considerar o valor da marca. Existem muitas empresas de mobiliário doméstico, mas poucas empresas têm a notoriedade de milhões de pessoas, como a Ikea. Por ser tão difícil fazer uma estimativa do verdadeiro valor da marca Ikea, não podemos apoiar-nos só nas demonstrações financeiras. No dia em que a Ikea estiver cotada em bolsa isto será evidente.
Um dos conceitos mais centrais da análise fundamental prende-se com a questão do valor intrínseco. Um dos primeiros pressupostos da análise fundamental é o de que o preço no mercado bolsista não reflecte completamente o valor "real" de uma acção a todo o momento. Por ser imperfeito, o mercado por vezes subavalia o valor das acções e noutras situações sobreavalia o valor das mesmas acções. Este fenómeno, que acontece todos os dias em todas as bolsas mundiais, é o que chamamos de volatilidade financeira e é o que permite o aproveitamento de algumas oportunidades. Por exemplo, pelo facto do valor das cotações de uma empresa subir ou descer 30% num dia só, como aconteceu com várias empresas do PSI-20 durante o ano de 2008, isso não significa que o valor real dessas empresas tenham variado na mesma ordem de grandeza.
A este fenómeno, Benjamin Graham chamou de Mr. Market e comparou-o a um vendedor que sofre de doença bipolar. Todos os dias, este vendedor, o Mr. Market, bate-lhe à porta propondo-lhe a compra ou a venda das suas acções a um valor que depende do seu estado de espírito. Se estiver bem disposto, o Mr. Market vai oferecer-lhe um bom dinheiro pelas suas acções, mas, pelo contrário, se estiver deprimido, vai propor-lhe um negócio miserável. É a sua decisão que conta, pode aceitar o negócio que ele lhe propõe, ou pode simplesmente ignorá-lo, esperando que ele volte no dia seguinte com uma nova proposta. A análise fundamental, que procura encontrar o valor real das empresas, o seu "valor intrínseco", aproveita-se das oscilações de humor frequentes do mercado e aproveita as oportunidades que este lhe oferece, comprando a um valor abaixo do valor intrínseco ou vendendo acima.
Digamos, por exemplo, que uma acção de uma empresa é transaccionada hoje no mercado a €20. Após uma análise exaustiva da empresa, consegue determinar que o valor real (o valor intrínseco) é de €25. Isto é claramente uma oportunidade interessante, já que permite ao investidor comprar acções que estão a ser transaccionadas a preços significativamente mais baixos do que o valor intrínseco estimado. Mas ... e se o mercado nunca vier a reflectir o valor intrínseco da acção?
Um dos pressupostos da análise fundamental é o de que a longo prazo o mercado vai reflectir as questões fundamentais. Se a empresa for capaz de gerar lucros e cash-flow a um ritmo superior ao do mercado, então a sua cotação vai evoluir mais rapidamente do que o índice de mercado, no longo prazo. Mas ninguém sabe ao certo o que significa "longo prazo", porque pode demorar dias ou anos. Ora, não vale a pena comprar uma acção baseando-se no valor intrínseco, se o preço nunca chegar a reflectir esse valor ou se o mercado se mantiver irracional por muito tempo, o que aliás acontece muito frequentemente.
A análise técnica é a outra maior forma de análise de activos financeiros - incluindo acções.
De um modo geral, os analistas técnicos baseiam os seus investimentos no preço e nos seus movimentos bem como no volume de transacções num determinado período. Usando quadros e uma série de outras ferramentas estatísticas, lidam com as tendências, não prestando grande atenção a análises fundamentais. Um dos princípios básicos da análise técnica é o de que o mercado desconta tudo. Assim, todas as informações sobre uma empresa estão reflectidas no preço das acções, o que significa que os movimentos do preço da acção dão mais indicações para comprar ou vender do que os factores fundamentais do próprio negócio.
Para um adepto da análise técnica, não interessa muito o sector em que a empresa opera, nem se apresenta lucros ou prejuízos. Pode comprar acções de uma empresa do sector petrolífero, financeiro ou imobiliário, não interessa. Mesmo que a gestão de topo seja incompetente e que os indicadores económicos sejam péssimos, o que lhe interessa é que se a tendência aponta para a subida, ele tem um sinal de compra. Uma empresa altamente lucrativa e inovadora, cujos indicadores estatísticos apontem para uma descida das cotações, vai originar uma ordem de venda.
Este tipo de investidores (na realidade são especuladores), actua principalmente no curto-prazo. São investidores que seguem a teoria do mercado eficiente, isto é, acreditam que o mercado, a todo o momento incorpora toda a informação disponível actual e futura no preço das acções. A lógica por trás deste argumento é que, uma vez que o mercado atribui de forma eficiente e contínua um preço a todas as acções, quaisquer oportunidades de retorno excedentário conseguidas com qualquer uma das análises seriam quase de imediato absorvidas pelos inúmeros participantes do mercado, fazendo com que seja impossível conseguir, a longo prazo, um desempenho superior ao do mercado.
A análise técnica incorpora a informação disponível num dado momento e as expectativas dos investidores nesse momento sobre uma determinada acção. As expectativas são os rumores, a informação que passa nas notícias segundo a segundo, enfim, o sentimento dos investidores. Claro que estamos a entrar num campo emotivo, mas que não deixa de ter a sua razão de ser. Se estiver calmamente num estádio a assistir a um jogo de futebol e verificar que toda a gente à sua volta começa a gritar em pânico a fugir, mesmo que não faça ideia do que está a acontecer, qual vai ser a sua reacção? Foge também ou deixa-se ficar? Se compreendeu este exemplo, compreendeu um dos pressupostos mais importantes da análise técnica.
Outro pressuposto da análise técnica baseia-se na repetição de comportamentos, isto é, se em determinadas situações é usual os investidores reagirem de determinada forma, então posso esperar que vão agir novamente dessa forma numa situação idêntica. Mesmo que seja difícil de provar este pressuposto, de alguma forma ele faz sentido.
Os principais métodos e ferramentas utilizados pela análise técnica serão explicados mais tarde num capítulo que dedicaremos especialmente ao investimento em bolsa mas, para já, podemos indicar os seguintes:
- Volumes,
- Médias móveis,
- Linhas de resistência e de suporte,
- Padrões gráficos,
- Osciladores,
- Etc...
Investir é, na nossa opinião, uma actividade produtiva e essencial para o bom funcionamento da economia (em última análise do nosso bem-estar), que deve ser baseada em informação e em todas as ferramentas que nos possam ajudar à tomada de decisão. Quer penda mais para o lado da análise fundamental ou para o da análise técnica, deve entrar no mercado o melhor preparado possível, evitando confiar exclusivamente na sorte. Veremos mais à frente como nos podemos apoiar nas duas técnicas.