Se, no entanto, em vez de investir apenas uma vez por mês, investisse acertadamente todos os dias em que o mercado sobe e vendesse na véspera de uma queda, a riqueza acumulada ascenderia a €2.742.604! Seria fazer um market timing perfeito, todos os dias!
Claro que estes exemplos são apenas hipotéticos. Em primeiro lugar, porque não consegue tomar a decisão certa todos os meses durante quase dez anos consecutivamente. Em segundo, porque o custo associado às transacções reduz significativamente os ganhos obtidos.
De facto, se considerarmos para o primeiro exemplo uma tributação de 20% sobre as mais-valias realizadas e uma comissão de 0,15% sobre cada transacção, acrescida de um montante fixo de €5, o capital acumulado seria de apenas €4.442. Não me dei ao trabalho de calcular os custos com comissões e impostos para o segundo caso, mas estou certo que lhe roubaria grande parte deste valor.
Seja como for, tentar "adivinhar o mercado" é uma ideia sedutora porque parece muito fácil e os ganhos são muito grandes quando se consegue.
Um investimento de €1.000 no IPO (Initial Public Offering, que significa a Oferta Pública Inicial ou o momento em que uma empresa dispersa o seu capital em bolsa) da Microsoft em Março de 1983, valeria cerca de €207.253 no final de 2008! Os professores de finanças Jay Ritter e William Schwert demonstram que um investimento de €1.000 dividido por todos os IPO que se realizaram em Janeiro de 1960 ao seu preço inicial, vendido no final desse mês e reinvestido sucessivamente todos os meses em novos IPO, proporcionaria um capital no final de 2001 no valor de:
€533.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000!
Infelizmente, não é possível acertar sempre e as tais comissões que parecem tão inofensivas, podem ganhar uma proporção realmente assustadora. Senão, vejamos o estudo dos professores Brad Barber e Terrance Odean: dividindo milhares de investidores em cinco categorias em função da frequência com que negoceiam, chegaram à conclusão que aqueles que negoceiam menos vezes têm performances superiores aos que negoceiam muito frequentemente (que estão na realidade a enriquecer os seus corretores).
É indiscutível que o mercado de acções proporciona ganhos muito interessantes, se se mantiver no mercado tempo suficiente. O S&P 500 cresceu 5510% desde o primeiro dia do ano de 1950 até ao dia 6 de Janeiro de 2009. O que representa um crescimento médio anual de 7%, mesmo tendo em conta que só no ano passado perdeu 32%.
Em 59 anos de observações, o S&P 500 cresceu 43 vezes e desceu apenas 16, com uma perda máxima de 32% e um ganho máximo de 40%.
Seguir uma estratégia de "buy and hold" (comprar e guardar) pode não oferecer lucros astronómicos mas garante um retorno entre 7 a 8 por cento ao ano com grande eficiência fiscal e baixos custos de transacção.
Qual o momento certo para entrar?
Se é avesso ao risco, propomos uma estratégia simples, denominada de dollar-cost averaging (ou, no nosso caso, euro-cost averaging), que consiste em investir periodicamente o mesmo montante num activo que replica exactamente a performance do mercado. Tipicamente este tipo de activos são fundos que reproduzem os resultados de um determinado índice com o menor custo possível. Podem ser índices de acções europeias, americanas, de mercados emergentes, de um determinado sector, etc.
Independentemente do momento em que decide entrar no mercado, esta estratégia vai permitir proteger-se das flutuações do mercado, aproveitando a tendência de longo-prazo. Porque investe sempre um montante fixo periodicamente (€100 por mês, por exemplo) quando o preço dos activos sobe, a quantidade comprada é inferior e, quando os preços descem, a quantidade comprada aumenta.
O dollar-cost averaging tem ainda a vantagem de o disciplinar, evitando que entre no mercado quando ele está em grande euforia e que saia logo após um crash, que é normalmente a melhor altura para entrar. É uma estratégia simples e que funciona como um piloto automático: qualquer banco transfere periodicamente o montante que indicar para um fundo suficientemente diversificado e de baixo custo, permitindo-lhe assim evitar preocupações excessivas com o timing certo para entrar no mercado e com a sua volatilidade.
Se investisse €100 por mês num fundo que replicasse o andamento do PSI 20 no início do milénio até ao início do ano de 2009, teria atravessado dois crashes bolsistas do pior que há memória, mas ainda assim teria acumulado um capital de €8.472. Veja no gráfico seguinte o que teria acontecido ao mercado e à sua carteira:

Durante este período assistimos à ascensão e queda das dotcom e à crise financeira do subprime, encontrando-se o mercado agora em níveis de 2003! O mercado caiu 48% em oito anos, o que se pode considerar um desastre. Mas ainda assim a sua carteira teve uma performance de -22%, considerando que investiu €10.900, o que é bem melhor.
Se tivesse saído do mercado no final de 2007, a sua carteira teria valorizado 58%, contra apenas 5% do PSI 20. Independentemente do ano em que decide sair do mercado, consegue sempre batê-lo, durante este período:
| Rentabilidade |
Carteira | Mercado |
| Sai em 2007 | 58% | 5% |
| Sai em 2006 | 42% | -10% |
| Sai em 2005 | 13% | -30% |
| Sai em 2004 | 1% | -39% |
| Sai em 2003 | -11% | -46% |
| Sai em 2002 | -31% | -53% |
| Sai em 2001 | -21% | -37% |
