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A análise técnica
A análise técnica é o método utilizado pelos investidores para analisar e prever a evolução dos preços futuros de diversos activos - acções por exemplo - baseando-se nos movimentos de preços históricos. É um contraste em relação à análise fundamental, que lida com influências macro e micro económicas.

Por isso, um analista fundamental olharia para as notícias sobre o desemprego e pensaria em como isso afecta os mercados e as empresas. Já o analista técnico olharia para os preços baixos dos meses, dias ou horas anteriores e usaria isso para determinar o movimento de preço mais provável.

Não é uma ciência nova, apesar de ter proliferado com o desenvolvimento dos computadores. Os japoneses já recorrem a esta técnica há séculos, para analisar o mercado do arroz, desenvolvendo sistemas de marcação chamados Candlesticks (velas de cera). E na década de 1930, Ralph Elliot desenvolveu a sua própria análise técnica, que hoje se chama Elliot Wave Principles. Já se escreveu muito sobre ambas as análises e muitos círculos financeiros ainda as seguem hoje em dia.

Naturalmente, a análise técnica actual evoluiu em complexidade, mas pode ser dividida em duas áreas distintas: uma é facilmente programável, a outra, tal como os candlesticks e o princípio de Elliot Waves, depende do reconhecimento visual.

A análise técnica baseia-se no princípio de que o passado tem uma predisposição forte para se repetir, principalmente no que se refere aos preços. Os investidores criam frequentemente pressupostos psicológicos sobre a formação dos preços, assumindo que não vai ultrapassar ou baixar de determinado valor, porque tal não aconteceu num passado mais ou menos recente. Embora este pressuposto seja muito discutível no plano académico, pois não existe ainda grande evidência científica de que funcione bem, ele é bastante conhecido no plano empírico, basta recordarmo-nos da barreira psicológica que foi criada em torno do preço do petróleo e a cotação mágica dos 100 dólares por barril...

O que os analistas técnicos fazem, então, é analisar gráficos em busca da repetição, de padrões e de tendências que os ajudem a prever a evolução futura dos preços de determinado activo. Convém referir, que a análise técnica pode ser usada para qualquer tipo de activos financeiros, desde que exista informação disponível. Entre eles, destacamos, os futuros e opções, o forex, os fundos de investimento, os índices e as commodities.

A análise de reconhecimento visual consiste em gráficos

Neste caso, o factor mais importante consiste em desenhar linhas, ligando os altos ou os baixos mais significativos (ou seja, os que se destacam e são facilmente observáveis no gráfico). Na verdade, as linhas constituem uma espécie de linha de procura e oferta, pontos em que os compradores estão por todo o lado (linhas de baixos) e pontos onde os vendedores inundam os mercados (linhas de altos). Nas tendências, estas linhas costumam constituir um canal de movimento de preço que serve de indicador de quando comprar e vender.

No gráfico abaixo podemos ver um exemplo de um gráfico de análise técnica da Altri entre os meses de Dezembro de 2008 e Junho de 2009.

tecnica

Cada uma das sessões de bolsa transacionou este título. Entre a oferta e a procura diária de acções da Altri podemos verificar, através do gráfico, a existência de um preço de abertura, um preço de fecho, um mínimo e um máximo. Vejamos o que se passou na sessão de 12 de Maio de 2009:

minimo

Através do gráfico, podemos verificar que a sessão abriu a €2,50 e fechou a €2,34. Durante o dia, atingiu o máximo de €2,50 e o mínimo de €2,30. Cada uma das barras (velas) do gráfico mostra-nos, quase instantaneamente, o que se passou com a cotação das acções desta empresa. Se subiu, se desceu e qual o grau de volatilidade. A cor vermelha indica uma sessão de queda e a verde, uma sessão de subida.

Além da informação dos preços, os gráficos mostram o volume transaccionado diariamente. Na parte inferior do gráfico podemos analisar um conjunto de barras verticais que nos indicam quantas acções se compraram (e venderam) em cada uma das sessões e bolsa. É importante analisar o volume em conjunto com a evolução dos preços pois maiores volumes representam normalmente um interesse maior dos investidores pelo activo em questão, conferindo uma solidez acrescida à formação do preço. Maiores volumes significam também maior grau de liquidez do activo em análise, o que é sem dúvida um dos critérios mais importantes a considerar em qualquer decisão de investimento.

volume

A partir destas informações básicas - preço e volume - os analistas técnicos constroem um manancial de indicadores estatísticos com o objectivo de prever o sentido da evolução das cotações e, mais importante ainda, o momento em que ocorrerão as subidas e descidas dos preços. Vamos abordar os principais e analisar o seu conteúdo.

Médias móveis

Se voltarmos a analisar o primeiro gráfico, verificamos que, para além do preço das acções, encontramos também três linhas que parecem acompanhar à distância a evolução das cotações da Altri. Estas linhas são as médias móveis e têm como principal função suavizar a volatilidade diária das cotações, de modo a que o investidor se concentre melhor na tendência dos preços e não se confunda com o ruído dos altos e baixos diários.

A média móvel é uma informação estatística que pode ser facilmente calculada se somarmos o valor de fecho de cada uma das n sessões anteriores e dividirmos esse valor por n. A cada nova sessão refaz-se o cálculo, eliminando-se a informação da sessão n-1 e acrescentando-se a da última sessão, e obtém-se assim uma nova média móvel.

Sendo o cálculo da média móvel bastante simples, a questão mais importante a considerar prende-se com a escolha do valor n, do número de sessões. Se usarmos médias móveis de curto-prazo, digamos, com cerca de 20 sessões, vamos construir um indicador muito sensível, que reflecte, quase instantaneamente, a evolução das cotações. Se, pelo contrário, optarmos por médias móveis de longo prazo (entre 100 a 200 sessões), vamos criar um indicador lento, mas que tem a virtude de nos mostrar a tendência das cotações num horizonte temporal mais largo, sendo portanto mais seguro.

As médias móveis são utilizadas pelos investidores para a decisão de quando comprar e vender. Embora seja uma estratégia de investimento muito simplista, pode ser eficaz apostar numa acção cuja cotação ultrapassa o valor da média móvel e vender essa mesma acção quando o contrário acontece, isto é, o preço cai para valores inferiores ao da média móvel.

Vejamos o gráfico seguinte para ilustrar o funcionamento das médias móveis:

medias

Neste exemplo, estamos a usar três médias móveis: de 20, 50 e 100 sessões - a azul, cinzento e vermelho, respectivamente. No gráfico podemos ver que enquanto a média móvel de curto prazo (MM20) se encontra em queda desde meados de Maio, a média móvel de 50 sessões (MM50) só começa a perder valor um mês depois. Ainda assim, a MM100 mantém a sua trajectória ascendente. Temos, portanto, informações diferentes consoante o período de cálculo das médias móveis, o que ilustra bem a importância da escolha do período de cálculo das médias.

No mesmo gráfico podemos também verificar que no dia 25 de Junho a MM 20 cai abaixo da MM 50. Situações deste género costumam indicar uma confirmação de tendência. Neste caso, seria a confirmação da tendência de queda destas acções, que já estava a ser indicada pela MM 20.

Dependendo da estratégia de cada investidor, as médias móveis podem ser um indicador poderoso do sentimento de evolução das cotações.

Para além da média móvel simples, que acabamos de descrever, existem outras versões um pouco mais elaboradas. É o caso das médias móveis exponenciais. Ao contrário das anteriores, as médias móveis exponenciais calculam a média das cotações das últimas n sessões, dando uma ponderação maior às sessões mais recentes. Pretende-se um indicador que valorize mais o passado recente do que o passado antigo, de forma a torná-lo mais reactivo às oscilações diárias das cotações.

As médias móveis exponenciais a 12 e a 26 dias são as mais usuais para investidores (especuladores) que investem diariamente (day traders), enquanto as médias móveis exponenciais a 50 e a 200 dias se podem considerar como indicadores de tendência de longo prazo.

Com a facilidade de cálculo das médias móveis simples e exponenciais que os sistemas informáticos e a Internet permitem, qualquer investidor deve considerar a informação nelas contida como uma orientação que permita suportar uma decisão de compra ou venda. A combinação de médias móveis de curto prazo com médias móveis de longo prazo permite decidir em que momento se deve comprar ou vender. Os momentos de crossover - o momento em que a cotação (ou a média móvel de curto prazo) se cruza com a média móvel de longo prazo - são particularmente importantes e indicam frequentemente uma inversão de uma tendência anterior. O gráfico abaixo das cotações das acções da Brisa tem vários desses pontos, consegue indentificá-los?

crossover

MACD - Moving Average Convergence Divergence
A análise das médias móveis conduz-nos a um dos indicadores de análise técnica mais conhecidos: o MACD (Moving Average Convergence Divergence) que, como o nome indica, assinala momentos importantes que ocorrem com a convergência ou a divergência das médias móveis.

O MACD é calculado subtraindo a média móvel exponencial a 26 dias da média móvel a 12 dias. Para se usar como instrumento de compra e venda de acções, calcula-se de seguida a média móvel exponencial a 9 dias do próprio MACD, obtendo-se assim duas linhas como se pode observar no gráfico seguinte:

macd

No gráfico podemos ver na linha azul o MACD das acções da Brisa entre os meses de Março e Junho de 2009. A vermelho está representada a média móvel exponencial a 9 dias do MACD. Os crossovers das duas linhas são os sinais de compra, quando o MACD ultrapassa a média móvel exponencial, e de venda, quando sucede o contrário.

Neste exemplo, podemos identificar três crossovers nos dias 12 de Março, 22 de Abril e 28 de Maio. O primeiro dá-nos um sinal de compra, o segundo de venda e o terceiro de compra, novamente, conforme se poderá analisar a seguir.
O que teria acontecido se tivessemos então comprado 1000 acções da Brisa ao primeiro sinal de compra e vendendo-as ao sinal de venda? Assumindo que realizamos estas operações ao preço de fecho, o resultado teria sido muito interessante, com um ganho de cerca de € 860 em pouco mais de um mês!

macd2

Por ser uma diferença entre duas médias móveis exponenciais, o MACD tem a vantagem de sinalizar mais rapidamente as mudanças de tendência, permitindo assim ao investidor aproveitá-las melhor, uma vez que vai ser possível comprar a um preço mais baixo e vender a um preço mais elevado do que aconteceria se se usassem apenas as médias móveis.

Bandas de Bollinger
Criado no início da década de 80 pelo trader John Bollinger, este indicador combina a análise da tendência - através das médias móveis - com a análise do risco - através do cálculo do desvio-padrão. Parece complicado mas não é. A sua grande utilidade reside precisamente na síntese de informação complexa e em permanente mudança. O interesse na utilização das bandas de Bollinger está na sua capacidade de nos transmitir o que é um preço elevado e um preço baixo.

As bandas de Bollinger consistem em três linhas:
  • a banda intermédia, que representa a média móvel simples das últimas n sessões (20, tipicamente);
  • a banda superior, que representa 2 vezes o desvio-padrão acima da banda intermédia;
  • a banda inferior, que representa 2 vezes o desvio-padra abaixo da banda intermédia.
A partir desta informação de referência, o investidor pode tomar as suas decisões com uma noção, não só de que o preço está baixo (quando a cotação se aproxima da banda inferior) ou está caro (quando a cotação se aproxima da banda superior), como também pode observar no gráfico o nível de volatilidade do título em questão. Quando as bandas se aproximam, a volatilidade está a diminuir e, quando se afastam, a aumentar.

bollinger

No gráfico acima podemos observar as bandas de Bollinger em acção. Neste caso, para as acções da EDP Renováveis. Como vemos, o período de grande subida das cotações a partir do início do mês de Maio, é acompanhado de uma maior volatilidade, aqui representada pelo afastamento das bandas superior e inferior. Verificamos mais tarde, a partir do início de Julho, uma consolidação dos preços em torno dos €7,25 acompanhada pelo estreitamento das bandas.

Analisar os preços é tão importante como analisar o volume

Em análise técnica, definimos volume como o número de transacções de compra e venda que ocorreram numa determinada sessão, normalmente diária. Visualmente podemos analisar o volume na parte inferior dos gráficos.

Porque é o volume tão importante? O volume confere maior solidez à formação dos preços e à confirmação de tendências sendo tão mais credível que o preço de uma acção seja de x quanto maior for o número de transacções sobre essa acção ao preço de x. Do mesmo modo, é tão mais forte o surgimento de uma tendência quanto maior for o volume que a comprove.

O volume fuciona pois como uma espécie de prova. No início de uma tendência de subida, a prova de que essa tendência é para se levar a sério está no volume: quanto maior for o volume, mais forte e veradeira é a tendência. Vejamos o exemplo abaixo.

volume2

O arranque da tendência de subida a partir de meados do mês de Abril das cotações da Sonae Indústria é assegurado pelo forte aumento do volume transaccionado, o que revela o interesse dos investidores neste título. Caso não se verificasse este aumento de volume, a tendência de subida deveria ser analisada com mais cuidado, poderia ser falsa.

O que aconteceu neste exemplo pode ser aplicado para qualquer tipo de padrões gráficos em análise técnica: têm de ser comprovados pelo volume. No caso de uma tendência de descida, e a assinalar o desinteresse dos investidores por um determinado activo, verifica-se normalmente o contrário, isto é, o volume costuma perder expressão.

Quais são as principais ferramentas de análise do volume?

Dada a importância do volume, vamos usar o Rate of Change (ROC) como o principal indicador. Podemos definir o ROC como o indicador técnico que nos transmite a variação positiva ou negativa do volume transacionado em relação ao volume de n sessões anteriores. A sua fórmula matemática é a seguinte: (Volume transacionado hoje - Volume transacionado há n sessões) / (Volume transacionado há n sessões).

Tal como outros indicadores técnicos, a dificuldade de obtenção do ROC não é grande, com toda a acessibilidade que a Internet hoje em dia permite, mas a escolha do valor n pode não ser muito fácil e, dependendo dessa escolha, o indicador poderá mostrar valor muito diferentes. No exemplo seguinte, vamos usar o ROC para 12 sessões da Sonae Indústria:

roc

É bem visível o pico do valor do ROC na sessão do dia 21 de Abril de 2009, confirmando a tendência de subida que se viria a registar nos dias imediatamente a seguir. Se o investidor estivesse atento ao ROC e tivesse investido no dia 21 de Abril, quando o indicador atinge o seu valor máximo, vendendo este título no dia 14 de Maio quando o ROC se volta a aproximar de zero, teria realizado um ganho de 23% em menos de um mês!

Também podemos usar as médias móveis para analisar a tendência de aumento ou diminuição do volume, como demonstramos anteriormente para a análise dos preços.

Pontos de resistência e de apoio

Quando o preço não consegue fechar acima de determinado nível, esse nível é referido como o de resistência. Os pontos de apoio são exactamente o contrário, já que indicam os pontos onde o mercado pára a descer. Estes pontos costumam reflectir as barreiras psicológicas à continuação de tendências. Aumentam em importância quanto mais estiverem presentes e a cada tentativa falhada de as cruzar. Mas quando o mercado as ultrapassa, constitui um sinal inequívoco de que está prestes a desenvolver-se uma tendência maior.

Outros estudos sobre os gráficos vão revelar formações diferentes, como as formações de "bandeiras" ou "triângulos". Normalmente, estas encontram-se em áreas de congestão ou em movimentos laterais. Não são necessariamente indicadores de mudanças nas tendências, mas antes que a tendência vai continuar quando o padrão for quebrado.

A análise técnica programável consiste em formulas pré-estabelecidas e bem definidas.

A análise técnica é uma actividade criativa e o conjunto de ferramentas à disposição dos analistas e investidores não acaba obrigatoriamente aqui. Depois de estudar e compreender bem todos estes indicadores, os investidores já podem criar os seus indicadores técnicos pessoais recorrendo à informática, nomeadamente a plataformas programáveis, como o TradeStation, o MetaTrader, entre outros.

A vantagem de todas estas análises técnicas é que tira a maior parte da subjectividade da tomada de decisões e deixa a decisão da compra ou venda a cargo de métodos estatísticos mecânicos, mais ou menos comprovados. Por outras palavras, com a análise técnica progrmaável tenta-se criar uma estratégia de investimento em "piloto automático" com todas as hipóteses estatísticas a nosso favor.

O grande defeito da análise técnica são os custos de transacção

É necessário ter em consideração que todas estas ferramentas de análise técnica se baseiam somente em três variáveis: tempo, volume e preços. E todas estas variáveis são conhecidas no passado, mas impossíveis de prever no futuro. Usando um maior número e complexidade de indicadores técnicos, corremos o risco de estar constamente a produzir "sinais" de compra e venda a todo o momento.

Ora, como já referimos noutro artigo, os custos de transacção, tipicamente as comissões de corretagem, entre outras, podem facilmente engolir qualquer lucro propocionado com a simples especulação de curto-prazo.


Nota: a fonte de todos os gráficos apresentados neste artigo é o Jornal de Negócios.
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